Sabrina Noivas - An Arranged Marriage

Ela queria se casar por amor! Blue Summer tem tudo o que o dinheiro pode comprar. Porm, o que ele almeja  1 esposa, filhos e a estabilidade emocional que a vida sempre lhe negou...Allison Lancaster sempre foi rica, mas nunca se importou com o dinheiro. De repente, por causa de 1 desfalque no banco do tio, sua famlia est ameaada. S seu casamento com Blue Summer pode livr-los da runa total. Mas como se casar com um homem que no acredita no amor?

Digitalizao e correo: Nina

Dados da Edio: Editora Nova Cultural 2000
Publicao original: 1998. Gnero: Romance contemporneo
Estado da Obra: Corrigida
 
Srie An Arranged Marriage
Ordem	Ttulo	Ebooks	Data
1	An Arranged Marriage
Sabrina Noivas 109	Jan-2000

2	The Marriage Bargain
Sabrina 1147	May-2000


Srie Cowboy Grooms Wanted!
Autor	Ttulo	Ebooks	Data
Fox, Susan	Wild at Heart
???	Aug-1997

Fox, Susan	An Arranged Marriage
Sabrina Noivas 109	Jan-2000

Denison, Janelle	Substitute Father
???	Mar-2000

Fox, Susan	The Marriage Bargain
Sabrina 1147	May-2000

Fox, Susan	The Man She'll Marry
Sabrina 1190	Apr-2001

Fox, Susan	The Wife He Chose
???	Sep-2001







PRLOGO

Blue Summer sentia que raramente tinha algo a oferecer a algum. A morte precoce da me, quando acabara de completar quatro anos, fez dele um homem sem iluses. A vida o ensinara a no sonhar, a no ter grandes expectativas. Filho de um caubi que passava a maior parte do tempo bbado e desempregado, Blue havia crescido graas  ajuda de estranhos que, na realidade, o desprezavam.
A vida de muitas privaes fez com que Blue, logo cedo, decidisse trabalhar. S assim teria um futuro, uma casa, e desfrutaria das coisas boas que o mundo podia oferecer. A obsesso de se tornar algum era to grande que, aos qua-torze anos, ele deixou a escola e, dizendo-se mais velho, conseguiu um emprego em perodo integral na fazenda mais importante da regio. Mais tarde, quando seus antigos colegas de classe j terminavam a universidade, Blue conseguiu concluir o segundo grau. Porm, acostumado a ser ridicularizado por causa da pobreza extrema e do baixo nvel social, ele no se importou com o fato. E nem pensou em cursar uma faculdade. Blue precisava elevar a sua auto-estima e, para isso, queria ser um homem de sucesso. Porm, sabia que teria de trabalhar duro para alcanar o seu objetivo.
Quando conseguiu o emprego na fazenda, Blue trabalhava doze horas por dia, todos os dias da semana, economizando cada centavo que conseguia, com a inteno de comprar um pedao de terra que fosse s seu. At que, oito anos atrs, com uma dvida que temia jamais conseguir pagar, comprara uma pequena fazenda, em pssimas condies. Ele, ento, se dedicara de corpo e alma  propriedade, trabalhando de sol a sol e dormindo num casebre cujo cho era de terra batida.
Houve dias em que Blue temeu morrer de cansao, tamanho o esforo que fazia para, sozinho, cultivar a terra e domar animais que ningum queria chegar perto. Porm, um belo dia, Blue descobriu que, embaixo do cho mo qual tanto trabalhava e que muitas vezes o fazia sangrar, existia o maior lenol de petrleo de toda a regio.
Era espantoso e surpreendente o que o dinheiro podia fazer por um homem. Coisas que antes eram apenas sonhos, tornavam-se realidade com um simples estalar de dedos. Quando a notcia sobre a descoberta do lenol de petrleo se espalhou, Blue comeou a ser procurado e reverenciado por todos os tipos de pessoas. Pessoas que antes faziam questo de ignorar-lhe a existncia. Mulheres da sociedade local faziam questo de lhe apresentar as filhas em idade de se casar. Mas Blue no se interessou por nenhuma daquelas moas ricas e inconsequentes. Muito cedo havia descoberto que tudo o que mais queria na vida era um lar, uma famlia e respeito. Esse querer talvez fosse a meta mais difcil que se impusera. E Blue queria uma mulher de verdade. Instruda, meiga, forte, E qual mulher, com tais requisitos, se disporia a unir-se a um homem que no cursara uma universidade e que tivera um passado de misria e infortnio como o dele? Se tal mulher existisse, na certa ela teria um preo, um preo pelo qual ele estava disposto a pagar, por mais alto que fosse.
De repente, uma imagem de mulher lhe passou pela mente. Blue balanou a cabea em negativa. Porm, com dinheiro, ele agora sabia que tudo no mundo era possvel. Mas ele sabia tambm que, se quisesse conquistar aquela mulher, no poderia lhe dar a menor chance de escolha.



CAPITULO I

Allison Lancaster estava bem prxima  entrado pequeno stio, que pertencia aos tios, quando, devido ao trfego intenso de caminhes e peruas, se viu obrigada a ir para o acostamento. Aguardando o momento oportuno para sair dali, recostou-se no banco e deu um longo suspiro. E foi naquele instante que percebeu que parte daquele movimento todo se devia  nova manso que estava acabando de ser construda nas proximidades. Bem que ouvira dizer que Blue Summer resolvera fazer a casa mais suntuosa de toda a redondeza, na nova fazenda que havia comprado.
"Blue Summer...", ela voltou a dar um longo suspiro. "Jamais vou me esquecer da forte impresso que esse homem me causou quando o vi pela primeira vez: alto, forte, ele mais parecia um touro. E Blue tem olhos incrivelmente verdes. Olhos que nunca me encararam de frente..."
AUison se encontrara com Blue um dia na estrada, quando ela estava comeando a trocar um pneu do carro. Em poucos minutos, ele resolvera tudo. Depois, quando os dois se cruzavam pelas ruas da cidade, Blue simplesmente fazia um leve movimento de cabea como cumprimento.
"Naquele dia em que Blue trocou o pneu, senti uma forte atrao por ele. A atrao foi to grande, que durante algumas semanas achei que estivesse apaixonada. Mas qual mulher no se sentiria atrada por um homem to diferente como aquele caubi? Entretanto, Blue tratava a todos com grande distanciamento, e nunca tive coragem de procur-lo."
Allison se lembrava muito bem daquelas mos enormes retirando o pneu da roda, como se fosse de brinquedo. A musculatura do trax, evidenciada pela camiseta molhada de suor, parecia ter sido esculpida aps anos e anos de ginstica numa academia. Mas ela soubera que Blue jamais frequentara academia alguma. Fora o trabalho quem moldara-lhe aquele corpo de atleta.
Allison continuou pensando em Blue, at se dar conta de que se encontrava tremendo.
 O que est acontecendo comigo? - ela se perguntou em voz alta e, s ento, percebeu que a estrada estava vazia. Ento Allison acelerou e, pouco tempo depois, j estacionava em frente  casa de campo dos tios.
Quando estava para abrir a porta da casa, viu que ainda tremia. Ento inspirou profundamente, tentando se acalmar. Depois, olhou para o local onde a manso de Blue tinha sido erguida imponente. Havia muita movimentao por l.
"E eu vim at aqui para conversar com ele. O que Blue Summer estar querendo? E por que ele ligou para o meu tio Charles, pedindo que me desse o recado? Blue poderia ter ligado diretamente para mim. Estranho, muito estranho esse telefonema..."
Da janela de um dos quartos do segundo andar, Blue observava a chegada de Allison, que para ele personificava a feminilidade: loira, de estatura mdia, corpo perfeito, instruda, refinada e elegante.
O vestido de linho branco, os sapatos e a bolsa que usava provavelmente haviam custado o dinheiro que ele levaria um ano para ganhar, antes de descobrir o lenol de petrleo em suas terras. E Blue no poderia imaginar o quanto ela havia pago pelos brincos e pelo colar que lhe assentavam to bem. Mas logo, se tudo desse certo, iria poder presente-la com jias daquele tipo.
"Allison  a mulher mais fantstica que encontrei em toda a minha vida. E poderei comprar para ela tudo, tudo o que desejar, num simples estalar de dedos."
Blue suspirou longamente e se afastou da janela.
Diante da porta imensa da manso, que se encontrava aberta, Allison hesitou. Apesar do tio ter lhe dito que estaria sendo esperada, jamais havia entrado na casa de uma pessoa sem ser anunciada. Para Allison, boas maneiras e precauo nunca eram demais.
Ainda parada diante da porta da manso, Allison no sabia o que fazer, quando apareceu um homem bem magro e baixinho que lhe disse:
	Deve ser a srta. Lancaster.
	Sou eu mesma.
	O sr. Summer est aguardando a senhorita.  Com um gesto, o homem pediu que ela entrasse.
Mais tensa do que jamais estivera em toda a sua vida, Allison o seguiu, e quando tinham ultrapassado o hall de entrada, para surpresa dela, ele parou e gritou:
	Hora do almoo, rapazes!
De repente, vrias pessoas que ainda trabalhavam na manso apareceram e saram, em seguida. Naquele instante, Allison se sentiu mais insegura do que nunca e se perguntou, pela milsima vez, o que tinha ido fazer ali. Ser que fora apenas a curiosidade que fizera com que aceitasse aquele convite inslito?
O homem, com um outro gesto, pediu que Allison continuasse a segui-lo. Aps terem passado por vrios cmodos, despojados de qualquer tipo de moblia, ele parou, inclinou ligeiramente a. cabea e, depois, se afastou.
Parada no meio de um imenso cmodo vazio, recm-construdo, Allison no sabia o que fazer. E viu que, realmente, havia cometido um grande erro. No poderia ter agido apenas por impulso. No era mulher de agir dessa forma. Ela, porm, no teve tempo de continuar se recriminando. Uma voz forte, meio rspida, interrompeu-lhe os pensamentos:
	Agradeo que tenha vindo.
Allison, que havia se assustado ao ouvir a voz de Blue, se voltou, deparando-se com um homem muito mais alto do que ela se lembrava e no conseguiu dizer nada.
"Por que tenho a sensao de que Blue Summer  capaz de ler os meus pensamentos? Por que esse homem mexe tanto comigo?"
	Agradeo muito que tenha vindo  ele repetiu.  O seu tio lhe falou sobre a minha proposta?
	Proposta...  Allison o fitou, desentendida.
	E. Proposta.  Blue estava se sentindo muito inseguro.
	Meu tio no me falou sobre proposta alguma.
	No? Ento, por que a senhorita veio at aqui?
	Era exatamente isso que eu estava me perguntando, quando o senhor entrou.
Blue Summer resolveu ser objetivo. Afinal, era um homem decidido, obstinado. Agora no poderia voltar atrs em suas decises.
	Pedi ao seu tio que lhe fizesse uma proposta em meu nome  ele disse, aps ter pigarreado.
	E posso saber qual proposta  essa?
	Quero que se case comigo, senhorita.
Allison achou que Blue estivesse brincando:
	O senhor disse que...
	Que quero me casar com a senhorita.
Allison, de repente, percebeu que Blue Summer estava falando srio.
"Ento, foi por isso que o meu tio pediu que eu tratasse Blue muito bem, independentemente do que ele quisesse falar comigo. E foi por isso tambm que o meu tio fez questo absoluta de deixar claro que era muito importante que Blue mantivesse parte de sua fortuna em nosso banco, pois, caso contrrio, estaramos praticamente falidos. Mas no posso me casar com um homem que no amo, mesmo que ele tenha todo o dinheiro do mundo. Isso seria insuportvel para mim. Mesmo assim, preciso me comportar com muita diplomacia para no ofend-lo."
Allison que, meio intimidada, baixara um pouco o olhar, o ergueu novamente. E, ao deparar-se com aquele par de olhos verdes, sentiu um calafrio percorrer-lhe o corpo. 
	Pelo que estou percebendo, a proposta que eu lhe fiz no a agradou.
	A proposta me surpreendeu muito, sr. Summer.
	E o que a senhorita tem a me dizer sobre ela?
	Bem, eu...  Allison jamais se vira em uma situao to delicada em toda vida.
	A senhorita no quer se casar comigo. E isso?  isso que est tentando me dizer?
	No posso me casar com um homem que mal conheo, sr. Summer.
	Se o nico impedimento for esse, poderemos solucion-lo  ele disse, prestando ateno em cada movimento, em cada expresso facial de Allison.  Venha, vou lhe mostrar a casa.
Por no saber o que fazer naquela circunstncia e para no se mostrar deseducada, ela resolveu segui-lo e ficou espantada com tudo o que viu, principalmente com o andar superior da manso, que j havia comeado a ser decorado. S algum com muito dinheiro poderia se dar ao luxo de construir uma casa to suntuosa.
	A decoradora esteve aqui logo pela manh.
	Ela est fazendo um belo trabalho.
	E mesmo?  Blue deu de ombros.   bom saber disso. Sou um caubi e nunca serei capaz de entender essas coisas. Mas se encontrar algo que no goste,  s falar com a decoradora. Vou lhe dar o telefone dela.
	G senhor est me dizendo que vai me dar o telefone da decoradora?
	Vou.
	Sr. Summer, acho que est havendo algum equvoco aqui  Allison disse, preocupada.
	No existe equvoco algum. A senhorita precisa gostar do lugar onde vai morar.
	Acho que realmente no me entendeu. No posso me casar com o senhor.
	No?  Summer a fitou desconfiado.
	Como lhe disse, ns no nos conhecemos.
	No sou bom o suficiente para a senhorita,  isso que est tentando me dizer?
	No, o que estou tentando lhe dizer  que, na minha opinio, dois desconhecidos no podem pensar em se casar. Casamento  um compromisso srio e precisa de amor. E eu no posso pensar em me casar com um homem que no amo.
	Amor...  Blue sorriu com um certo cinismo.  Para mim o amor nada mais  do que um monto de hormnios descontrolados correndo pelo nosso sangue e fazendo com que a gente confunda tudo.
	O senhor, ento, no acredita no amor?
	No, eu no acredito no amor. Acredito, sim, no trabalho. Em muito trabalho. No cursei a faculdade, no tenho muito conhecimento, mas sou um homem honesto, srta. Lancaster.
	No duvido disso.
	E posso lhe garantir que serei um tirno marido e um pai exemplar.
"Meu Deus, ele realmente est decidido a se casar comigo!" Blue continuou:
	Tambm posso garantir que serei um marido fiel.
	Sr. Summer, no posso me casar com o senhor.
	Por qu?  Ele a fitou em desafio.
	Pelo motivo que j lhe disse e por mais um.
	 mesmo? E qual  esse outro motivo?
	No posso me casar com um homem que no acredita no amor.
	Quer dizer que sua resposta  no.
	Exatamente: a minha resposta  no.
	Se  assim, vou ter de arrumar um jeito para faz-la mudar de ideia  ele disse, enquanto a fitava de maneira direta e intensa.
Para fugir daquele olhar e sem saber que fugia de si mesma, Allison se dirigiu at a porta do cmodo em que se encontravam.
	Para onde voc est indo?  Summer quis saber.
	Para a minha casa. Tenha uma boa tarde, sr. Summer.
Apressada, Allison desceu as escadas e s se sentiu um pouco mais  vontade quando se viu do lado de fora da manso. Porm, seu corao s comeou a voltar ao ritmo normal quando j estava no carro, a caminho de casa.
Muito nervosa, Allison no parava de pensar na cena que vivera h pouco. Blue Summer estava mesmo decidido a se casar com ela.
"Por qu?", Allison se perguntava em pensamento. "Por que ser que ele decidiu me escolher? No  porque Blue Summer tem muito dinheiro que pode agir dessa maneira. Alis, ningum pode decidir, de repente, se casar com uma pessoa que mal conhece!"
Allison deu um longo suspiro e comentou baixinho, balanando a cabea em negativa:
	Imagine... Imagine uma coisa dessa. E o amor?  Ela voltou a balanar a cabea em negativa.  Mas Blue Summer no acredita em amor. Um monte de harmnios. Para ele o amor no passa de um monte de hormnios. E isso  l maneira de se definir o amor?
Enquanto seguia para casa, Allison continuou pensando em tudo o que havia acontecido naquela manso.
"E claro,  claro que fiquei lisonjeada com a proposta dele. Qual mulher no ficaria? Summer  um homem muito bonito. E aquele olhar... Meu Deus, aquele olhar me deixa totalmente descontrolada."
Ao chegar em casa, Allison j s sentia bem mais calma e estranhou ao ver que o seu tio, Charles Wallace, a aguardava na sala de estar, sentado ao lado da esposa. Por que aquela mudana de hbito? O tio jamais deixava o banco antes das seis da tarde.
	Oi, minha querida  Charles Wallace a cumprimentou, com um amplo sorriso nos lbios.
	Oi, tio.
	Tudo bem com voc?  Patrcia Lancaster Wallace, a tia, quis saber.
	Est tudo bem, sim.  Allison beijou o rosto da tia, em cumprimento.  E a senhora?
	Estou me sentindo muito bem.
	E eu? Eu no vou ganhar um beijo?  o tio reclamou.
	Mas  claro que sim.  Allison tambm beijou o rosto do tio.
	Sua tia e eu estvamos aqui fazendo uma aposta.
	E mesmo? E qual aposta  essa?
	Eu acho que Blue Summer j marcou a data, sua tia acha que no.
	A data...  Allison os fitou, meio desentendida.
	A data do casamento minha querida.  Patrcia sorriu, satisfeita.
	Para quando vai ser?  o tio quis saber.
	Titio, no vai haver casamento.
	No vai?  Charles Wallace a fitou, espantado.
	No, no vai. E gostaria muito que o senhor tivesse me contado qual era a inteno de Blue Summer.
	Temia que no fosse at l, caso eu lhe contasse.
	E acho que no teria ido mesmo.
	Por que no vai haver casamento?  a tia quis saber.
	Porque rejeitei a proposta do sr. Summer, titia.
	Voc fez isso mesmo?  o tio perguntou, muito contrariado.
	E o senhor ainda tem alguma dvida?
	Mas eu pedi que voc o tratasse bem, ser que se esqueceu?
	Quanto a isso, o senhor pode ficar tranquilo. Eu tratei Blue Summer muito bem.
	Mas ele me disse que iria pedi-la em casamento  Charles murmurou bastante confuso.
	E foi exatamente o que ele fez. E eu no aceitei o pedido. Foi isso o que aconteceu.
	Por qu?
	Tio, Blue Summer ou qualquer outro ser humano s deve se casar com algum que ama.
	No poderia ter rejeitado o pedido dele, Allison. Seria muito importante que voc se unisse ao nosso principal cliente. O Chaney Bank est  beira da insolvncia. Isso tudo porque eu confiei naquele seu amigo, John Blake.
	Tio, ns j discutimos muito sobre isso.
	S concordei que aquele seu amigo da faculdade fosse trabalhar comigo porque voc me pediu.
	John provou que  muito capaz. E o senhor, encantado com a inteligncia e o dinamismo dele, logo o promoveu. Eu apenas o indiquei para a vaga que havia no banco.
	Realmente John Blake foi o jovem mais capaz que encontrei at hoje. Mas no deveria t-lo promovido to cedo, no deveria ter confiado to cegamente nele.
	Eu tambm concordo.
	Ento, por que voc o indicou para a vaga?
	Porque ele era meu amigo, oras. E John, desde o primeiro ano, sempre foi o melhor aluno da faculdade.
	Aquele rapaz me decepcionou muito. Quando ele me disse que precisaria se afastar alguns dias por motivos particulares, deveria ter desconfiado.  Charles Wallace  levou as mos  cabea.  Meu Deus! Ele nos roubou tudo o que pde. John roubou tanto que nos deixou nesta situao desesperadora.
	Titio, continuo achando que o senhor deve avisar a polcia.
	No, j lhe disse que no vou fazer isso. Se a imprensa descobre o que aconteceu, estaremos arruinados para sempre. O nome do nosso banco estaria definitivamente na lista das instituies no confiveis. O detetive que contratei vai conseguir encontr-lo.
	Ser?  Allison duvidou.
	Tenho f em Deus, Allison. E a minha f em Deus  inabalvel. O detetive, mais cedo ou mais tarde, encontrar o rastro daquele desqualificado. Enquanto isso, precisamos sobreviver. Enquanto isso, precisamos de Blue Summer.
	Mas Blue j  cliente do banco.
	S que eu gostaria que ele deixasse mais dinheiro l conosco. Alm disso, se voc se casar com Blue, na certa ele vai querer me contratar como consultor financeiro.
Allison estava se sentindo pressionada pelas expectativas dos tios.
	E isso para mim ser fantstico  Charles continuou.
	Ser mesmo  Patrcia concordou, apesar de se mostrar meio indecisa.
	Mas Blue Summer lhe disse que, caso viesse a se casar comigo, ele passaria a trabalhar mais com o nosso banco? Ele lhe disse que o senhor passaria a ser o consultor financeiro dele?
	No, Blue Summer no me disse isso. Mas no se preocupe, AUison. Apenas aceite a proposta que Blue lhe fez e deixe o resto comigo.
	O senhor est me pedindo algo impossvel, tio.
	No vejo nada de impossvel em lhe pedir que se case com um homem rico e muito charmoso. Todas as mulheres da nossa cidade adorariam estar no seu lugar.
	Acontece que eu no sou as mulheres desta cidade.
	No seria sacrifcio algum de sua parte. E estaria salvando o banco. Entenda isso, Allison.
	Mas  claro que seria um grande sacrifcio para mim, tio Charles.
	Por qu?  A tia a fitou com um ar angustiado, que jamais a abandonava.
	Tia, casamento para mim  sinnimo de amor. E eu no amo Blue Summer  Allison afirmou e teve vontade de dizer:  "Embora eu me sinta muito atrada por ele."
	O amor vem com o tempo, Allison  Charles afirmou.  Voc acredita que todos os casamentos do mundo so feitos por amor?
	Sei que tem muita gente se casando por puro interesse. Mas eu no concordo com isso.
	Deixa de ser romntica, Allison. Romantismo pertence ao passado.
	No, no acredito que romantismo pertena ao passado, tio. Estaria me violentando se casasse por interesse financeiro. 
Charles olhou para a esposa e pediu:
	Por favor, Patrcia, converse com Allison. J esgotei os meus argumentos. Nossa sobrinha realmente ainda no entendeu que estaremos arrumados, caso essa unio no acontea.  Preocupado e muito nervoso, Charles deixou a sala.
Allison, que se mantivera de p at aquele momento, acomodou-se numa poltrona em frente ao local onde a tia se encontrava. Um silncio pairou entre as duas.
Patrcia Lancaster, uma mulher com um pouco mais de cinquenta anos, mas que aparentava bem menos idade, mantinha os olhos baixos, fitando algum ponto indefinido no cho. Allison adorava aquela mulher que a acolhera e a tratara como filha, aps a morte dos pais.
	Tia, estou me sentindo muito confusa  Allison rompeu o silncio.
	Eu tambm estou me sentindo muito confusa, minha filha.
	Ser que a situao do banco  to ruim assim?
	. A situao do banco, na verdade,  pssima.  A tia a fitou com muito carinho.  O seu amigo agiu como um verdadeiro profissional. Ele praticamente nos deixou na misria.
	Meu Deus...
	Mesmo assim, minha querida  Patrcia sorriu com tristeza , que seu tio no me oua, acho que no deve se violentar. No pode se sacrificar tanto, no pode se casar com um caubi apenas para nos salvar da runa. Se o pior acontecer, seu tio e eu encontraremos uma maneira digna de sobreviver. Portanto, pense em voc, pense apenas na sua felicidade.
Allison continuou conversando com a tia e, quando resolveu ir tomar um banho, sentia-se mais confusa do que nunca.

CAPITULO II

Uma semana se passou. Uma semana terrvel para Allison. Na noite do dia em que fora conversar com Blue na manso, sonhara muito com ele. Nas noites que se seguiram, a mesma coisa havia acontecido.
Allison, aps muito pensar, havia chegado  concluso que Blue, mesmo no a amando, a desejava. E, pelos sonhos explcitos que vinha tendo desde que o visitara, ela tambm o desejava. E muito.
"Meu medo  que isso tudo seja s desejo. Ser? Ser que  possvel amar algum que quase no conhecemos direito? O que o meu inconsciente estar querendo me transmitir? Por que, alm dos sonhos erticos, tambm vivo sonhando que tenho uma famlia com Blue e que somos muito felizes? Como estou confusa, meu Deus. Como estou confusa..."
Allison levantou-se e vestiu um conjunto de moletom e um par de tnis com a inteno de correr um pouco. Porm, ao sair do quarto, deu de cara com o mdico da famlia.
	Bom dia, doutor. O que est acontecendo?
	Sua tia no est nada bem.
	Minha tia? O que aconteceu com ela?
	Patrcia teve uma crise de presso alta e est muito deprimida. Tentei saber o que est acontecendo, mas ela e o seu tio se negaram a comentar qualquer coisa comigo. E eu sinto que algo muito grave paira sobre essa casa.
	E a presso do meu tio?
	A presso do seu tio tambm no est nada boa. No podemos esquecer que ele j foi internado duas vezes com crise hipertensiva.
	Meu Deus...
Daquele instante em diante, Allison se sentiu mais pressionada do que nunca. As duas pessoas que mais amava no mundo corriam risco de vida, simplesmente porque ela se negava a ajud-los.
	Voc poderia me esclarecer o que est acontecendo?
Allison sabia que no podia contar ao mdico que o banco estava indo  falncia. Se fizesse isso, o tio jamais a perdoaria.
"Eu tambm jamais irei me perdoar, caso acontea algo com os dois. Vou ter de me sacrificar. Vou ter de me casar com Blue Summer."
	E ento  o mdico insistiu , voc poderia me esclarecer o que est acontecendo?
	No, doutor. Infelizmente, no sei o que est acontecendo.
O mdico foi embora logo em seguida. Allison, ento, decidiu que iria correr. Trmula, muito ansiosa, foi sentar-se na sala de estar e ficou pensando. Algo lhe dizia que agora, mais do que nunca, deveria seguir o -seu corao.
Aps ter ido visitar a tia que se encontrava descansando na cama, Allison, decidida, deixou a casa onde fora acolhida e tratada como uma princesa e rumou para a manso de Blue. L chegando, desceu do carro, bateu na porta e foi atendida pelo mesmo homem que a recebera anteriormente.
	Poderia falar com o sr. Summer?  ela pediu.
	Meu patro no est aqui.
	No?  Ela engoliu em seco.
	O sr. Summer est inaugurando a piscina.
	A piscina...
	E. A piscina acabou de ser construda ontem. Mas posso ir cham-lo, caso a senhorita no queira ir at l conversar com ele.
	No, prefiro aguardar aqui.
	Ento entre, por favor.
Como na primeira vez em que ali estivera, Allison foi encaminhada para a mesma saia vazia. E l, muito nervosa e insegura, aguardou por Blue.
"Sei que posso me arrepender pelo resto da minha vida, mas tenho de fazer o que o meu corao manda. Assim, tambm estarei ajudando aos meus tios. Para mim dinheiro nunca significou nada. Portanto, no vou me casar com Blue Summer por interesse financeiro!" Ao se dar conta do que estava pensando, Allison se sentiu muito triste. "Ser que estou querendo disfarar a realidade? Ser que  amor mesmo o que sinto por Blue? Ou ser que s estou querendo tornar nobre e aceitvel a minha deciso? Todos, todos vo pensar que s estou me casando por interesse. Que Deus me ajude!"
O homem baixinho se aproximou da piscina e gritou:
	Patro, o senhor tem visita.
Blue, nadando lentamente, se aproximou da borda e pediu:
	Repita o que disse, Douglas.
	O senhor tem visita, patro.
	No estou esperando visita alguma.
	E aquela moa que esteve aqui na semana passada.
	Sei...  Ao ouvir aquilo, o corao de Blue disparou dentro do peito.  J vou falar com ela.
Douglas se afastou, e Blue, antes de sair da piscina, ainda nadou cerca de cinco minutos. Depois, seguiu para a manso.
	Bom dia  ele disse, ao entrar na sala, ainda molhado e de sunga.
	Bom... bom dia...  Allison titubeou, pasma com a harmonia do corpo que tinha diante de si. J havia imaginado que sob as roupas pesadas que Blue usava existiam formas atlticas, mas nunca imaginara tanta perfeio.
	A senhorita quer falar comigo?
	Quero.
	Ento venha comigo.
	Para onde?  Allison estremeceu.
	Tem um sof velho no outro cmodo.
Os dois se dirigiram para o cmodo ao lado. Ainda sob impacto daquela esplendorosa quase nudez, Allison se manteve calada, fazendo de tudo para no fit-lo.
	Pode se sentar  ele disse indicando o sof, aps ficar observando Allison por um longo tempo.  Pode ficar sossegada, a senhorita no vai sujar a sua roupa. O lenol que est cobrindo o sof foi trocado hoje.
	No estou preocupada com a minha roupa, sr. Summer.
S estava esperando ser convidada a me sentar.
	E a gente precisa desse tipo de convite?
	Precisa. Faz parte da boa educao.
	Nunca soube como receber uma pessoa. Na verdade, durante toda a minha vida, recebi poucas visitas.
	Receber bem no  nada difcil.  s fazer com que a pessoa se sinta  vontade.
	E to fcil assim?
	.
Blue ficou em silncio e depois comentou, balanando a cabea em negativa:
	Acho que nunca vou aprender boas maneiras.
	Mas  claro que vai. Se quiser, pode comear a treinar agora.
	Eu j disse para se sentar.
	Certo.  Allison se sentou.  Agora, para continuar sendo um homem educado, o senhor deve ir se trocar.
	Por qu?
	Porque o senhor est quase nu, sr. Summer.
	Mas voc no me avisou que viria.
	E, eu deveria ter avisado. Isso tambm faz parte das boas maneiras. Mesmo assim, gostaria que fosse se trocar.
Bastante inibido, Blue deixou o local onde se encontravam.
Ao se ver sozinha, Allison deu um suspiro entrecortado.
"O que est acontecendo comigo? Por que o fato de Blue Summer ter me recebido de sunga me deixou to irritada e to descontrolada?" Ela mordeu o lbio inferior e respondeu s suas prprias perguntas: "Desejo. Puro desejo. E eu nunca tinha sentido nada semelhante antes por homem algum. Preciso me controlar!!"
Allison continuou sentada, brigando contra aqueles sen--timentos ainda novos para ela. E quando Blue reapareceu, usando cala jeans, botas e uma camiseta preta de mangas curtas, ela percebeu que de nada adiantara pedir-lhe que se vestisse. Blue Summer, vestido, tinha ficado muito mais sexy, muito mais sedutor.
"Acho que troquei seis por meia dzia...", ela constatou em pensamento.
	Algum problema com a minha roupa?  Blue quis saber.
	No, de maneira alguma. Sua roupa est tima.
	Ento, por que est me olhando desse jeito?
	Eu?  Allison levou um susto. Ser que o seu olhar estava sendo indiscreto, revelando o que se passava com ela?
 Estou olhando para o senhor de uma maneira normal.
	Eu acho que no.
	Bem, gostaria de ir direto ao assunto que me trouxe aqui. Daria para o senhor se sentar?
	Estou muito bem de p.
	Gostaria que o senhor se sentasse  Allison insistiu.
	J disse que estou muito bem de p.  Ele a fitou em desafio.  Agora quero saber o porqu de ter vindo me procurar.
	Porque estou precisando de ter uma conversa franca com o senhor.
	Eu s sei ter conversas francas, srta. Lancaster.
	Otimo. Ento, me diga: o senhor e o meu tio condicionaram o nosso casamento?
	No entendi.
	O que estou querendo saber  se o meu tio concordou com as suas intenes, na esperana de que coloque mais dinheiro no banco e o contrate como consultor financeiro.
	Meu pedido de casamento no tem nada a ver com o banco do seu tio.
	Mas se nos unssemos...  no sabendo como terminar a frase, ela a interrompeu.
	Daria para me explicar melhor aonde est querendo chegar, srta. Lancaster?
	Bem, casamentos arranjados geralmente so por causa de dinheiro. E eu estou com a sensao de que o senhor est querendo me comprar.
	De maneira alguma  Blue se apressou em negar.  Nosso casamento no teria nada a ver com o banco do seu tio. 
	Mas por que o senhor resolveu se casar comigo? Existem milhares e milhares de mulheres no Texas.
	Eu sei.
	Escolha uma delas.
	Eu no quero  Blue afirmou com convico.
	Por qu?
	Porque qualquer outra mulher s estaria querendo o meu dinheiro.
	E eu? Por que tambm no estaria querendo o seu dinheiro?
	Isso no me importa.
	No?
	De maneira alguma.
	O senhor est sendo incoerente.
	Aparentemente, sim. Acontece que.as outras mulheres eu no quero. Portanto, estaria sendo enganado. Mas voc...
	O que me faz diferente das outras mulheres?  Allison, ansiosa, o interrompeu.
	Voc  a mulher que eu quero...
Apavorada com aquela conversa, Allison resolveu ser sincera:
	Este tipo de. casamento no foi o que imaginei ter um dia.
	Mas  o casamento que eu quero. Portanto, acho que deveramos marcar a data.
	No disse que iria me casar com voc.
	Acontece, srta. Lancaster, que ns vamos nos casar, sim. E acho que deveramos marcar a data j. E eu quero um casamento de verdade: no civil e no religioso. Depois, para comemorar, faremos a maior festa de que esta cidade j ouviu falar.
	Um casamento assim custa muito dinheiro.
	E quem, aqui, est preocupado com dinheiro? Veja tudo o que quiser, contrate quem bem entender e mande as contas para mim.
	Acho que o senhor no entendeu: um casamento do tipo que est querendo ficar uma fortuna.
	Tenho muito dinheiro, Allison Lancaster. Bem mais do que pode imaginar. Portanto, no se preocupe com ninharias.
	Pelo jeito o senhor no d a menor importncia ao dinheiro.
	Claro que dou importncia ao dinheiro. Afinal, foi muito difcil para eu ganh-lo. Entretanto, para o meu casamento, gastarei o que for necessrio.
	Quer dizer que o senhor est mesmo disposto a se casar comigo?
	Estou. Mais do que nunca.  Ele a fitou de uma maneira que deixou Allison totalmente sem ao.  S quero que pare de me chamar de senhor. De agora em diante, quero que me trate pelo meu nome.  Blue sentou-se ao lado dela no sof e, sem mais nada a dizer, a tomou nos braos e a beijou.
Allison, pega de surpresa, permaneceu imvel, apenas sentindo aquele beijo trrido, que tinha sabor de desejo. Um desejo forte, incontido.
Blue foi diminuindo a intensidade do beijo. Em seguida, voltou a fit-la e disse:
	J que a gente vai se casar...  Antes de terminar a frase, ele voltou a beij-la. Desta vez, porm, Allison no fez questo nenhuma de esconder o que sentia.
Ao se afastar dela de novo, Blue pediu:
	Diga o meu nome.
	Blu... Blue...  Allison titubeou.
	Repita. Repita, por favor.
	Blue.  O rosto dele estava to perto, que Allison no se conteve. Quando deu por si, o estava beijando quase em desespero.
	Isso  bom, muito bom  Blue sussurrou-lhe contra os lbios.  Eu sabia que sob esta aparncia recatada existia uma mulher de verdade.
Allison no se importou com aquelas palavras, no se importou com nada. Algo dentro dela ansiava por continuar beijando aquela boca bem feita.
	Acho melhor voc ir embora.  Blue se levantou e Allison se sentiu profundamente envergonhada.  Se continuar me beijando desse jeito, no poderei me responsabilizar pelos meus atos.
	Me desculpe, eu...
	Por que voc est se desculpando? Isso no faz o menor sentido. O que importa  que, como eu sempre soube, nossas peles se combinam. Isso significa que teremos um bom casamento.
"Meu Deus, eu deveria ter me contido, eu deveria..."
	No precisa se arrepender, Allison.  muito bom saber que voc tambm me deseja. Agora, por favor, v para casa.
Amanh eu lhe telefono para combinarmos os detalhes do nosso casamento. E pense na data.
Como havia prometido, no dia seguinte, Blue entrou em contato com Allison, e, por telefone, os dois marcaram a data do casamento.
O ms que se seguiu, aps a segunda visita que Allison havia feito  casa de Blue, passou muito rpido. E ela, durante todo esse tempo, tinha a sensao de que pairava no ar, que vivia um sonho. Os tios, quando ficaram sabendo do casamento, como que por milagre, se recuperaram de imediato.
Mas, apesar de se verem com frequncia, Allison e Blue s conversavam a respeito da cerimonia e nunca mais haviam se tocado. Assim que a manso ficou pronta, Blue deixou nas mos dela a decorao da casa e pediu que contratasse uma governanta, uma cozinheira, uma copeira e um mordomo. Todo o preparativo da festa do enlace tambm ficou ao encargo de Allison. As atividades eram tantas que s  noite, quando colocava a cabea no travesseiro para dormir, era capaz de pensar no que tinha acontecido entre ela e Blue, quando o visitara pela segunda vez. E no estava sendo nada fcil encarar os fatos: depois daquela visita, depois que o beijara de maneira to voraz, certificou-se de que era obsesso o que sentia por ele. A cada instante que passava, mais e mais ansiava para que chegasse o dia do casamento, o dia em que poderia dar vazo ao imenso desejo que inundara todas as clulas do seu corpo. Porm, apesar da obsesso, Allison temia que aquele casamento no desse certo. Sexo era muito importante, mas no era s isso que mantinha um casal unido. E era sexo, apenas sexo, o que Blue queria dela.
Na noite que antecedeu ao casamento, apesar do cansao, Allison s conseguiu conciliar o sono s trs horas da madrugada. 
A cerimnia, realizada na principal igreja de Chaney, contou com a presena de todas as autoridades locais e com vrios magnatas vindos de fora.
Ao entrar na igreja, acompanhada pelo tio, que no cabia em si de tanto contentamento, Allison se emocionou profundamente ao ver Blue no altar, vestindo um smoking impecvel. Para um caubi, no era nada fcil suportar uma roupa como aquela. Mas Blue, para no envergonh-la, fizera questo de ir comprar a roupa em Dlias.
"Meu Deus, faa que um dia este homem me ame", Allison pediu, em pensamento, quando diante de Deus e dos homens jurou amor e fidelidade a Blue.
Aps a cerimnia religiosa, os convidados se dirigiram  manso, onde foi realizado o casamento civil e, em seguida, o almoo.
Por volta das quatro horas da tarde, Allison resolveu se trocar e foi para a sute que, daquele dia em diante, tambm lhe pertencia. L chegando, olhou para um espelho grande o qual ocupava quase toda a parede e que fora colocado ali por causa da insistncia da decoradora. A imagem que Allison viu foi a de uma noiva que usava um vestido muito delicado e fingia tranquilidade. Mas essa tranquilidade era aparente. Allison, mais do que nunca, estava com medo de ter cometido o maior erro da sua vida. Um erro irremedivel. Irreparvel. Permaneceu pensando, imvel, por mais alguns minutos, e, ao decidir trocar o vestido por uma roupa mais confortvel, a porta se abriu.
Pelo espelho ela viu a figura alta, longilnea, do homem que agora era seu marido. Blue se aproximou por trs e, sem pronunciar uma s palavra, a abraou. Antes de fechar os olhos, ela teve diante de si, refletida no espelho, o rosto de uma mulher temerosa, ansiosa, e a de um homem determinado, que parecia saber exatamente o que queria da vida.
Blue sabia, com certeza, exatamente o que queria da vida. Tanto sabia, que havia conseguido. Em seus braos estava a mulher por quem se sentira selvagemente atrado desde o primeiro momento em que a vira, a mulher que agora era sua esposa. E sabia que tambm era desejado por ela, o que lhe dava uma imensa satisfao.
E Blue, ao contrrio de Allison, no fechou os olhos. Ao comear a beijar-lhe o pescoo delgado, bem feito, ele continuou fitando suas imagens refletidas no espelho, o que lhe aumentava, em muito, o desejo. AQ perceber que Allison se excitava com aqueles beijos, Blue tomou-lhe os seios nas mos, por sobre o vestido, e continuou a beijar-lhe o pescoo para, em seguida, lentamente, comear a despi-la.
O vestido de noiva caiu no cho. Naquele momento, Blue no quis mais continuar olhando para o espelho e fez com que Allison se virasse para ele. O beijo que se seguiu foi arrebatador. Blue percorreu-lhe o pescoo com a ponta da lngua enquanto a livrava da calcinha e do suti.
Quando sentiu um dos seus mamilos sendo mordiscado para, em seguida, ser sugado, Allison gemeu de prazer e apertou, com fora, a cabea de Blue contra si.
Blue, ento, sem pressa e com extrema delicadeza, passou a sugar-lhe os mamilos, ora um, ora outro... e, logo depois, beijou-lhe o ventre e aconchegou os lbios sobre o seu sexo. Daquele instante em diante, Allison perdeu a noo de tempo, de espao. Cu e terra se uniram, e, pela primeira vez na vida, ao sentir um orgasmo longo e muito profundo, ela soube o significado exato da palavra prazer.
Ao perceber o que tinha acabado de acontecer, um misto de felicidade e vergonha invadiu o corpo e a alma de Allison. Como? Como pudera se entregar daquela maneira? O que Blue estaria pensando dela? Que se entregava a qualquer homem sem apresentar qualquer tipo de resistncia?
Blue, parecendo adivinhar o que lhe ia pela mente, simplesmente a abraou e, em seguida, seguiu para um dos banheiros da sute.
Dentro da suntuosa iimusne que os levava para Dlias, Allison e Blue se encontravam em silncio. Na ltima hora, antes de deixarem a festa, ele havia dispensado o motorista, dizendo que estava com vontade de dirigir.
"Por que ser que Blue no diz nada? Tambm dizer o qu, depois do que aconteceu no quarto? Eu deveria ter me contido. Deveria ter dito que aquele no era o momento. Deveria ter dito... Mas Blue me pegou totalmente de surpresa. Jamais imaginei que ele ousaria tanto. Pelo jeito, Blue Summer tem como limite apenas a prpria vontade."
Blue continuou em silncio at chegarem na sute do hotel mais sofisticado de Dlias, onde ficariam hospedados.
	Voc quer ir jantar agora, ou prefere tomar um banho antes?  ele quis saber.
Com medo de novamente ceder aos carinhos de Blue, caso voltasse a toc-la, Allison se apressou em dizer:
	Gostaria de ir jantar. No consegui comer quase nada na festa do nosso casamento.
	Se quiser, podemos pedir que nos tragam o jantar aqui.
	No, prefiro ir para um restaurante.
	Esse hotel tem quatro restaurantes. Poderamos ir a um deles. Mas tambm podemos ir a um outro que fica a duas quadras daqui.
	Prefiro ficar no hotel, Blue. Estou me sentindo bastante cansada.
	Se  assim, vamos at ao restaurante francs. Estive uma vez l, e a comida  muito boa.  Ele sorriu com timidez.  Garanto que nunca imaginou que um caubi como eu j tivesse entrado num restaurante francs.
	Para lhe dizer a verdade, fiquei um tanto surpresa  ela afirmou.
	Sei que ainda vou surpreend-la muito mais, sra. Summer  Blue disse, num tom misterioso, o que fez com que Allison sentisse um calafrio percorrer-lhe o corpo.

CAPITULO III

O restaurante era finssimo. E, durante o jantar, Allison continuou se surpreendendo com Blue. Para quem dizia no saber o que eram boas maneiras, at que ele estava se comportando com muita classe.
	Fiquei sabendo que seus tios criam voc desde que seus pais faleceram.
	E verdade.
	Voc era muito nova quando isso aconteceu?
	Estava para completar trs anos. So vagas as lembranas que tenho dos meus pais.
	E como foi que eles morreram?
	Num acidente areo. Meu pai no conseguiu controlar o avio que estavam, e  acidente aconteceu.
	No sabia que seu pai era piloto.
	Ele era, sim. Meu pai gostava de viver perigosamente. Mas, na verdade, ele era empresrio. Por pouco eu no morro tambm.
	Como assim?  Blue perguntou, curioso.
	Meu pai tinha acabado de comprar aquele avio. E convidou a minha me para ir estre-lo numa volta pelos arredores da cidade. Como eu estava meio febril, os dois resolveram me deixar em casa com a governanta.
	Esse assunto incomoda voc?
	No. Como eu lhe disse, tenho apenas vaga lembrana dos dois. Meus pais, na realidade, so o meu tio Charles e a minha tia Patrcia.
	Os dois gostam muito de voc.
	Tambm gosto muito deles.
	Seu amor pelos seus tios  tanto que voc, para satisfaz-los, resolveu se casar comigo?
	Eu no sei como lhe responder a essa pergunta.  Allison sentiu que ficava vermelha. .
	Voc ficou constrangida com o que lhe perguntei?
	E que estou com medo que esse nosso casamento possa dar em nada. Voc no me ama, Blue. E realmente acredito que um casamento s se sustenta se houver muito amor entre o casal.
	Mas voc tambm no me ama.
" exatamente a que voc se engana", ela teve vontade de dizer. "E o que sinto por voc, Blue, est me deixando muito confusa, bastante perdida."
	Tenho a sensao de que esse casamento aconteceu por causa de algum arranjo entre voc e o meu tio  Allison comentou.
	No, senhora. Voc continua equivocada: esse casa mento aconteceu porque eu quis.
	Blue, quero lhe fazer novamente uma pergunta: com tantas mulheres que dariam a vida para se casar com voc,
por que resolveu escolher justamente a mim?
	Porque eu desejo voc.
	Desejo no  tudo.
	Para mim , sim.
	Quer dizer que no existiu acordo entre voc e o meu tio?
	Ele no  seu tio. Ele apenas se casou com a sua tia.
	E isso faz alguma diferena?
	Para mim faz. E bom saber que nas suas veias no corre o mesmo sangue dele.
	Nunca tinha percebido... Voc no gosta do meu tio.
	No, eu no gosto dele.
	Aprecio muito a sua sinceridade, mas gostaria de saber o porqu de no gostar do meu tio.
Blue tomou um gole de vinho.
	Por favor, Blue, me diga: por que voc no gosta do meu tio?
	Charles Wallace  um homem muito falso. Para ele s o dinheiro conta.
	Pelo que pude perceber, ele gosta muito de voc  Allison tentou defender o tio.
	 mesmo?  Blue ironizou e levou novamente o copo de vinho aos lbios.
	Pode acreditar. Tio Charles vive dizendo que voc  uma pessoa exemplar.
	Agora que me tornei um homem rico, sou a pessoa mais adorvel do mundo  ele voltou a ironizar.  O dinheiro transforma qualquer bandido em pessoa de bem.
	Definitivamente: voc no gosta do meu tio.
	No, eu no gosto dele  Blue repetiu, convicto.
	E eu gostaria de saber o motivo, Blue.
	Pois vou lhe contar. Na verdade, j  mais do que hora de eu lhe contar.  Blue se ajeitou na cadeira e continuou:  Seu tio  um homem sem alma e sem corao.
	O tio Charles?  Allison ficou atordoada ao ouvir aquilo.
	Exatamente: Charles Wallace. Para ele s o dinheiro  importante. Um dia, quis fazer um emprstimo para comprar mais terra, e ele me negou o emprstimo. Para Charles Wallace, jamais teria dinheiro para saldar a minha dvida. A, tempos depois, o governo abriu uma linha de financiamento para que os pequenos fazendeiros pudessem comprar implementos agrcolas. Recebi uma carta do banco do seu tio e, mesmo no querendo dinheiro emprestado para comprar implementos agrcolas, fui at l. Seu tio, ento, disse que me emprestaria dinheiro para a compra de mais terra. E eu aceitei a oferta, mesmo com juros extorsivos. Honrei a minha dvida at a penltima parcela. Quis renegociar o que restava, pois estava sem dinheiro por causa do preo do gado que havia cado no mercado. Seu tio se negou a renegociar o que eu devia e quis tomar as minhas terras.
	Meu tio fez isso?
	Fez.
	 inacreditvel...
	Pois pode acreditar. Praticamente implorei que me desse mais tempo. Mas Charles Wallace foi implacvel e...
	Mas voc chegou a perder as terras?  Allison o interrompeu, consternada.
	No, graas a Deus e  ajuda de um outro banqueiro de San Antone, Ty Cameron. Ty me concedeu o emprstimo de que eu tanto necessitava. E foi ele tambm quem me ajudou muito quando descobri petrleo em minhas terras.
	Jamais imaginei que o meu tio fosse to cruel.
	Ele , sim, muito cruel.  Devagar, Blue balanou a cabea em afirmativa.  Ty Cameron estava no nosso casamento.
	Eu me lembro dele. Ty  um senhor alto, magro, de cabelos bem brancos.
	Exatamente. Voc o descreveu direitinho. Ty  um homem muito honesto. Infelizmente, no posso dizer o mesmo do seu tio. Garanto que ele se casou com a sua tia por causa do dinheiro dela.
	Ser?  Allison duvidou.
	Bem, pelo menos  o que todos dizem. Dizem tambm que sua tia, ao contrrio de Charles Wallace, se casou por amor. Sou urn homem que acredita que a gente paga, aqui na terra mesmo, todo o mal que fazemos. E o seu tio no perde por esperar.
Ao ouvir aquilo, Allison estremeceu. Existiria uma ameaa velada naquelas palavras? Ser que Blue se casara com ela para, indiretamente, atingir o tio? Se isso tivesse acontecido, uma vida muito difcil a esperava.
Calado, Blue continuou saboreando as delcias da cozinha francesa. Mais preocupada do que nunca, Allison no foi mais capaz de tocar na comida.
	Por que voc parou de comer?  ele quis saber.
	No estou mais com fome.
	S porque lhe contei que o seu tio  um desclassificado?
 Blue sorriu com amargura.  No vale  pena deixar de comer por causa de um crpula como ele.
	Voc  muito duro com as pessoas, Blue.
	No, muito pelo contrrio, normalmente as pessoas me inspiram compaixo, ou um sentimento parecido. Mas
com o seu tio  diferente. Tenho nojo de pessoas como ele.
	Pelo jeito a raiva que voc sente pelo meu tio jamais vai passar.
	No, eu lhe garanto que no vai passar mesmo. Precisamos ser clementes com os outros seres humanos. Sempre fui um homem trabalhador, Allison. At hoje s me dediquei ao trabalho. Portanto, quando fui procur-lo para renegociar a minha dvida, era o mesmo que sou hoje. A nica diferena  que hoje eu sou um homem rico. Detesto qualquer tipo de discriminao. S quem j foi discriminado sabe o significado exato dessa palavra.
	Pensei que admirasse o meu tio. Todas as vezes que o vi conversando com ele, voc me pareceu muito tranquilo.
	Aprendi a aparentar a tranquilidade dos hipcritas. Foi difcil, mas aprendi. O mundo dos negcios exige muita hipocrisia.
	Voc era mais feliz quando pobre, Blue?
	As vezes eu penso que sim. Antigamente, quando algum se aproximava de mim, tinha certeza de que esse algum no estava querendo nada em troca. Hoje em dia  diferente. S me sinto seguro quando quem est conversando comigo no sabe quem eu sou.
	Isso  muito triste.
	 triste, sim.  Blue pegou a garrafa, serviu-se de mais vinho e ofereceu:  Quer tomar mais um pouco?
	No, muito obrigada.
Mais uma vez o silncio se instalou entre os dois. Allison continuava muito preocupada em saber do dio que Blue nutria pelo homem que a criara.
	Voc quer que eu lhe pea a sobremesa?
	Eu agradeo, Blue, mas estou satisfeita.
	E um caf? Posso lhe pedir um caf?
	No, muito obrigada.
"Ele est me tratando de uma maneira muito formal. E parece ter esquecido do que aconteceu conosco antes que sassemos para viajar. Mas eu no me esqueci. E jamais vou me esquecer. Realmente deveria ter me controlado. Com essa desconfiana toda que Blue tem das pessoas, na certa, agora ele deve estar me considerando uma mulher vulgar. Logo eu, logo eu que jamais deixei que os meus namorados tivessem qualquer tipo de intimidade comigo. At hoje eu s tinha sido beijada."
	Vamos para a sute?  Blue a fitou intensamente nos olhos.
	Va... vamos...
	Voc est nervosa?
	No, nem um pouco  ela mentiu.
	Pois eu estou me sentindo bastante nervoso.
	 mesmo?  AUison duvidou.
	Pode  acreditar em mim.    a minha primeira lua-de-mel.
Ao entrarem na sute, Allison decidiu fazer a Blue a pergunta que vinha martelando-lhe o crebro desde que soubera do dio dele por Charles Wallace:
	Blue, voc resolveu me usar?
	Eu? Usar voc? Por que faria isso?
	Para atingir o meu tio.
	De maneira alguma. J lhe disse que o nosso casamento nada tem a ver com o seu tio.
	Tem certeza disso?
	Mas  claro que tenho certeza, Allison. Acha que eu precisaria me casar com voc para atingir o seu tio?
	No sei.  Ela deu de ombros.
	Se me conhecesse no estaria to preocupada.
	E justamente por no conhec-lo que estou preocupada. 
	Pois no fique. Sou um homem de carter, Allison.  Blue se aproximou do telefone.  Vou ligar para a portaria e pedir que nos tragam champanhe.
	Gostaria que no bebssemos mais, Blue.
	Por qu?
	No gosto muito de bebida alcolica.
	Tudo bem.  Ele sorriu com timidez.  Uma outra hora a gente saboreia um belo champanhe.
	Bem, eu vou tomar um banho.
	Posso ir com voc?
	No  ela se apressou em dizer, sentindo-se muito invadida.
	Por qu?
	Porque no vejo motivo para que tome banho comigo.
	Ser que se esqueceu de que somos casados?
	No, eu no me esqueci. E antes que pergunte, tambm no me esqueci...  Allison, envergonhada, no terminou a frase.
	...tambm no me esqueci do que aconteceu antes de deixarmos a manso  ele completou-lhe a frase.
	Aquilo no deveria ter acontecido.
	Por qu? Deve aprender a aceitar o sexo como algo natural, Allison. Sexo faz parte da vida.
	Eu sei disso. Mesmo assim, aquilo no deveria ter acontecido.
	Pois saiba que eu gostei. E muito. Pensei que tambm tivesse gostado.
	Vou tomar um banho  ela disse e saiu apressada da sala.
J fazia uns dez minutos que Allison se encontrava sob o chuveiro. Ao entrar no banheiro, ela no tinha a menor inteno de lavar a cabea. Mas, de repente, ao imaginar que Blue j a aguardava na imensa cama de casal, viu que seria melhor ficar ali dentro mais tempo e, sem pensar duas vezes, molhou a cabea.
"Acho que no deveria ter molhado a cabea. Afinal, hoje  a minha noite de npcias, e no deve ficar bem uma noiva chegar na cama com os cabelos molhados. Mas agora no d mais para voltar atrs. S se tiver um secador no armrio."
Allison pegou um vidro de xampu que se encontrava numa pequena estante dentro do box e sentiu-lhe o perfume.
	Delicioso... Que cheiro gostoso de rosas...  ela disse baixinho.
Meia hora mais tarde, Allison continuava sob o chuveiro. "No posso continuar adiando o inadivel. J lavei a cabea trs vezes. Tenho de sair daqui agora!"
Allison desligou o chuveiro e enrolou-se na toalha. Sobre uma cadeira, se encontrava a camisola de cetim branco que vestiria. Ao lado da cadeira, um par de chinelos no mesmo tecido da camisola.
"Isso no poderia ter acontecido! Eu me esqueci da calcinha. E eu no posso ir para a cama s de camisola. J chega o que aconteceu l na manso. No quero que Blue pense mal de mim." Ela suspirou longamente. "Mas tambm no posso sair do banheiro s para ir pegar a calcinha. Se fizer isso... Meu Deus, que situao!"
Allison, apavorada e muito envergonhada, se enxugou. Depois, resolveu procurar um secador no armrio. E encontrou dois. Ela, ento, pegou um deles e secou os cabelos. Em seguida, s lhe restou vestir a camisola, os chinelos e...
	No vou conseguir ir para o quarto.  Ela sentou-se na cadeira, sem saber o que fazer.  Acho que vou ficar aqui a noite toda.
De repente, Allison percebeu que estava agindo com muita imaturidade. Embora aquele no tivesse sido um casamento convencional, ela era, sim, esposa de Blue. Portanto...
"Portanto, tenho de sair desse quarto j!"
Munida de toda, coragem que conseguiu dentro de si, Allison abriu a porta do banheiro. Para sua decepo, meio atravessado na cama e usando apenas uma sunga, Blue tinha adormecido.
Allison, aliviada, sorriu ao ver aquela cena e resolveu dormir no outro quarto. Porm, quando estava se aproximando da porta, tropeou no tapete e quase caiu.
Blue abriu os olhos e quis saber:
	O que est acontecendo?
	Nada, eu s estava indo para o outro quarto.
	E o que voc estava indo fazer no outro quarto?
	Dormir, oras.
	E ia me deixar aqui sozinho, logo na nossa noite de npcias?
	Mas voc estava dormindo.
	E voc queria que eu fizesse o qu? Tem ideia de quanto tempo ficou trancada naquele banheiro?
	Uns... dez minutos...
	No senhora, voc ficou l dentro por bem mais do que uma hora. Agora venha para a cama.
	Prefiro ir para o outro quarto, Blue. Ns estamos cansados, o dia hoje no foi nada fcil.
	Venha  ele pediu num tom baixo de voz, enquanto estendia-lhe a mo.
	Blue, eu acho melhor...
	Venha. O seu lugar, de hoje em diante,  aqui nesta cama comigo.
	Voc faz muita questo mesmo?  Allison sabia que a pergunta era bastante idiota, mas fora inevitvel faz-la.
	Allison, deite-se aqui ao meu lado.
"Chega de criancice. V!", ela se recomendou em pensamento. "Voc est louquinha para se deitar com ele!"
	Certo.  Allison sentou-se na beirada da cama.
	Voc  virgem?
Ela engoliu em seco antes de responder:
	Eu? Virgem?
	Quem mais est aqui neste quarto alm de ns dois?
	Eu acho que ningum.
	Portanto, mocinha, a pergunta foi feita para voc.
	Qual pergunta?
	Eu lhe perguntei se voc  virgem.
Allison pigarreou e disse:
	Mais ou menos.
Aquela resposta fez com que Blue desse uma gargalhada.
	No ria de mim  ela pediu.
	No estou rindo de voc, mas, sim, da sua resposta. Ou voc  ou voc no  virgem. Pelo menos eu acho que no existe um meio termo para isso.
	Eu j tive algumas experincias com os meus namorados.
	E mesmo? E quais tipos de experincias foram essas?
 No vou lhe responder a essa pergunta. Voc est invadindo a minha intimidade.
	Me desculpe.  Blue sentou-se ao lado dela na cama.  Mas eu continuo querendo saber se voc  virgem.
	Tudo bem: eu sou virgem, sim. E da? Voc tem alguma coisa contra as virgens?
	No, de maneira alguma.
	Ainda bem.
	S estava querendo saber se voc era virgem para redobrar os meus cuidados. No quero machuc-la.  Blue acariciou-lhe o rosto de leve.  Mas por que voc nunca Se entregou a ningum?
	Porque no quis, porque no tinha chegado o momento.
	E como foi que uma moa to linda como voc conseguiu esta proeza?
	No foi uma proeza, mas uma opo.
	Eu admiro muito voc, Allison.
	 mesmo? E posso saber por qu?
	Porque voc  uma moa e tanto. Fiquei sabendo que se dedica de corpo e alma s pessoas que sofrem.
	 verdade. Mas tambm tenho inmeros defeitos.
	Me fale sobre eles.
	Para qu?
	Para eu conhec-la melhor.  Vendo que Allison hesitava, Blue resolveu ajud-la:  Se no quiser me falar sobre todos, cite pelo menos um.
	Bem, quando perco a pacincia eu viro uma fera.
	No acredito. Voc  to meiga.  difcil imaginar que possa perder o controle.
	Pois eu perco, sim.
Meio intimidado, Blue tomou-lhe uma das mos e, alm de notar-lhe a frieza, percebeu que Allison tremia.
	Vamos nos deitar.  Ele a puxou com delicadeza e fez com que se recostasse no travesseiro.
Ao seu lado, Allison no sabia como agir.
	Deite-se aqui no meu ombro e continue me falando sobre voc  Blue pediu.
	No tenho mais nada para falar sobre mim  ela respondeu e apoiou a cabea nos ombros fortes.
	Voc realmente  uma mulher surpreendente. Agora acho que devemos dormir. O dia realmente foi muito difcil.
 Blue beijou-lhe a testa.  Tenha uma boa noite de sono, sra. Summer.
	Mu... Muito obrigada.
CAPITULO IV

Para Allison foi uma grande surpresa a atitude de Blue. Jamais imaginara que, na sua noite de npcias, no seria tocada pelo marido. Mas aquela atitude, em vez de deix-la triste, a reconfortou. Pelo menos, no fora apenas por sexo que Blue fizera questo de se casar com ela. Mas se no fora por sexo, o que o levara a querer aquela unio?
"Talvez ele esteja mesmo querendo me usar para se vingar do meu tio", ela concluiu em pensamento. "Mas Blue no me parece um homem vingativo, muito pelo contrrio. E se  mesmo verdade tudo o que ele me contou, realmente no conheo o homem que me criou."
Sentindo-se protegida pelo calor daquele corpo viril, Allison adormeceu. E, na manh seguinte, ao acordar, sentiu-se muito feliz. .  Bom dia, sra. Summer  ele a cumprimentou.
	Bom dia, Blue. Pensei que ainda estivesse dormindo.
	J faz um bom tempo que acordei. No quis acord-la, por isso permaneci quietinho.
	Quanta considerao!
	Tento no fazer com os outros aquilo que no quero que faam comigo.
	No entendi.  Ela se apoiou em um dos braos e o fitou.
	No gosto de ser acordado, mas, sim, de despertar de acordo com o ritmo do meu corpo.
	Sabe que eu tambm adoro despertar? J temos algo em comum, Blue.
	Acho que temos vrias coisas em comum. S que ainda no descobrimos.  Ele beijou-lhe a ponta do nariz.  Com o tempo, ns descobriremos.
	Claro. Com o tempo, sim.
	Preciso lhe dizer uma coisa, AUison.
	Pois diga.
	Bem, fiquei muito contente em saber que voc  virgem. 
	Por qu? Ser que acredita que a dignidade de uma moa est no fato de ela ser virgem?
	De maneira alguma, longe de mim pensar numa besteira como essa.
	Se  assim, no entendi o motivo desse fato t-lo deixado feliz.
	Fiquei feliz porque isso mostra que voc  uma pessoa que tem opinio prpria e no se importa com a opinio dos outros.
	E no me importo mesmo. Procuro ser coerente apenas com as minhas convices.
	Isso  muito bom.  Ele voltou a beijar-lhe a ponta do nariz e deixou a cama. Depois,, foi para o banheiro. Ao voltar para o quarto, perguntou:  O que quer para o caf da manh? Vou pedir que nos sirvam aqui na sute.
Allison, que ainda se encontrava na cama, respondeu:
	Bem, quero leite, cereais e frutas.
	S isso?
	Pode pedir tambm que me tragam um ovo quente.
	Certo.  Blue vestiu um short, uma camiseta, e foi para a sala onde pediu que lhes trouxessem o caf da manh.
A cada instante que passava, Allison ficava mais e mais surpresa com a delicadeza e ateno de Blue.
"Pensei que ele fosse um homem rude, uma espcie de homem da caverna. Mas Blue Summer est se mostrando um verdadeiro cavalheiro."
Allison se levantou, pegou um vestido leve de microfibra e foi para o banheiro de onde saiu j vestida.
Ao entrar na sala, encontrou Blue com uma revista nas mos e quis saber:
	O que voc est lendo?
	Estou lendo um artigo sobre boas maneiras.
	No acredito.  Ela riu.
	Pois pode acreditar. Desde que resolveu se casar comigo, decidi que precisava aprender um pouco de um mundo que desconheo. No quero que sinta vergonha de mim.
	Mas eu no sinto vergonha de voc.
	Fico feliz em saber disso, mesmo assim preciso me aprimorar. Por exemplo, no sei comer com garfo e faca.
	Eu notei. Mas isso no  importante.
	Claro que . Nos almoos de negcio que vou, todos comem com garfo e faca.
	 s uma questo de treino. Alis, como tudo na vida. Eu aprendi a comer com garfo e faca desde muito cedo.
	Eu tambm percebi.  Ele riu.  E incrvel a intimidade com que consegue manejar os talheres.
Os dois continuaram conversando at que o caf da manh fosse trazido.
A mesa, enquanto se alimentavam, a conversa continuou bastante amigvel.
	Estive pensando em ir viajar  Blue comentou.
	Quando?
	Hoje. Ou amanh, talvez.
	Voc vai resolver algum negcio fora?
	No, Allison, estou falando da nossa lua-de-mel. No se esquea de que estamos em lua-de-mel.
	E mesmo!  Ela levou uma das mos  cabea.
	E ento? Para onde quer ir?
	No sei...
	Estive pensando em ir para a Esccia. Sempre tive muita vontade de conhecer aquele pas.
	Eu nunca estive l. E olha que j viajei bastante.
	Poderamos tambm ir para um lugar bem extico.
	Voc gosta de lugares exticos?
	Na verdade, no. Bem, a realidade  que eu nunca tive dinheiro ou tempo para sequer pensar em sair do Texas. E, quando fiquei rico, s viajei a negcios. Antes de encontrar petrleo nas minhas terras, nunca tinha sado do nosso estado.
	Eu no sabia disso.
	Pois  a mais pura verdade. Naquela poca, trabalhava de sol a sol. Sempre quis prosperar. Mas nunca pensei que prosperaria tanto.
	Voc  um exemplo, Blue Summer. Provou que o trabalho pode, sim, nos levar a melhorar de vida.
	Eu tive sorte, Allison. Conheo muita gente que trabalhou a vida toda e no conseguiu comprar nem um teto para morar.
	Voc tem razo. Mas se no tivesse insistido, acreditado na sua fora de trabalho, jamais chegaria onde chegou.
	Gostaria muito de ter frequentado uma faculdade.
	E mesmo?
	, sim. Mas no deu. O trabalho era a minha vida.
	Por que no frequenta uma faculdade agora?
	Agora?  Blue sorriu.  De maneira alguma, j estou muito velho.
	Velho? Imagine...
	No d para comear a frequentar uma faculdade com trinta e cinco anos.
	Mas  claro que d. Tem gente que resolve fazer uma faculdade aos sessenta, setenta anos  ela o incentivou.
 E que faculdade voc gostaria de cursar?
	Sempre pensei em fazer veterinria, ou agronomia.
	Pois faa veterinria e depois faa agronomia tambm.
	Voc est louca.
	Louco est voc, se no tentar realizar um sonho. E hoje voc tem dinheiro suficiente para fazer quantas faculdades quiser.
	 verdade...
	Me prometa que vai pensar no assunto.
	Tudo bem, vou pensar no assunto. Mas agora vamos decidir para onde viajaremos. Se fosse poca de carnaval,
gostaria muito de ir para o Rio de Janeiro.
	Quem diria! Quer dizer, ento, que Blue Summer gosta de carnaval?
	Eu acho que sim. Uma vez vi uma reportagem na televiso em que mostravam o carnaval de l. Fiquei encantado.
 Ele deu um longo suspiro.  Um dia a gente vai para l. Mas agora temos de resolver sobre a nossa viagem.
	Olha, Blue, eu preferia ficar aqui mesmo em Dlias. Vamos ter muito tempo para viajar. Uma vida inteirinha rios espera.
    Tem certeza?
	Tenho, sim. Sei que vamos passar dias muito agradveis por aqui mesmo.
	Muito obrigado.
	No entendi o seu agradecimento.
	 que no estou com vontade de viajar. S que no queria lhe dizer isso.
	Pois deveria ter dito. Se ficarmos aqui, poderemos ir ao cinema ver os ltimos lanamentos, poderemos ir ao teatro,  pera.
	pera?  Blue perguntou, espantado.
	E: pera. Acho que voc vai gostar. Tem uma companhia muito boa se apresentando aqui.
E os dois realmente decidiram por ficar em Dlias. Pela manh, saam para passear a p, A tarde, depois de almoarem, iam ao cinema, e  noite ao teatro.
Porm, a noite que Allison mais se divertiu foi quando conseguiu lev-lo  pera.
	Sou muito caipira para gostar de pera  ele disse, com sinceridade, ao deixarem o teatro.
	Mas voc se comportou muito bem, Blue Summer.
Ficou quietinho o tempo todo.
	Claro! Eu estava dormindo!  Ele riu e a puxou para junto de si.  Amanh cedo sairemos para fazer compras.
	O que est pretendendo comprar?
	Ainda no sei.
No dia seguinte, pela manh, os dois foram at um shopping recm-inaugurado em Dlias.
	Quero lhe dar alguns presentes  ele disse, eufrico, e a puxou pela mo.
	Alguns presentes? No seja exagerado.
	Sempre quis ter algum que pudesse presentear. Agora que tenho uma esposa, no vou perder a chance.
E Allison se espantou com a generosidade de Blue. Naquele dia, depois de t-la presenteado com vrios pares de sapatos, vestidos, blusas, bolsas e biquinis, no satisfeito, ele a levou a uma joalheria.
	Blue, chega de gastar dinheiro  Allison disse baixinho, quando j se encontravam dentro do estabelecimento.
	J lhe disse que voc no tem de se preocupar com dinheiro.
	Mesmo assim, no acho justo que gaste tanto.
	Deixa que eu decido isso.
Um senhor se aproximou dos dois e perguntou:
	Posso ajud-los em alguma coisa?
	Pode, sim  Blue respondeu.  Queremos ver algumas jias.
	Algumas jias...  O vendedor os fitou meio desconfiado. Afinal, em tantos anos de profisso, jamais tinha vendido jias a pessoas que usassem bermudas e tnis.
	Sim, as mais belas jias que o senhor tiver aqui  Blue respondeu.
	Se quiser ver alguma coisa mais simples, eu...
	O senhor no entendeu o que eu lhe disse.  Blue percebeu que estavam sendo discriminados por causa das roupas e ficou com muita raiva.
	Calma, Blue  Allison pediu.
	Blue Summer!  Um senhor muito distinto, usando um terno impecvel, tinha entrado na joalheria.  Quer dizer que o novo milionrio do Texas se casou! Me desculpe no ter podido comparecer  cerimnia. Estava em Londres.
	Senti a sua falta, mas entendo o que aconteceu.  Blue, ento, fez as apresentaes:  Esta  a minha esposa, Allison. E este, Allison,  John O'Neill, o homem que mais entende sobre minerao no Texas.
	Muito prazer, sr. O'Neill.
	O prazer  todo meu, sra. Summer. Mas acho que j nos encontramos antes.
	Allison  sobrinha de Charles Wallace.
	Charles Wallace, o banqueiro? Ento  por isso que eu estava achando que j a conhecia. A gente deve ter se encontrado em alguma festa.
	Com toda certeza.  Allison sorriu.
	Mas o que voc est fazendo aqui na joalheria, Blue? Resolveu gastar um pouco da sua fortuna?
	Era o que estava pretendendo fazer, mas esse senhor ali  Blue olhou para o vendedor que se mantinha a uma certa distncia dos trs , parece que no gostou muito das nossas roupas. Portanto, vou procurar um outro lugar onde possa presentear a minha esposa com tudo o que ela merece.
	Bem, se isso aconteceu, sinto muito.  John O'Neill olhou zangado para o vendedor.  Mas gostaria de apagar a m impresso que teve da minha joalheria. Venha, Blue, eu mesmo vou atend-lo.
John O'Neill levou os dois para uma sala reservada e disse:
	Quero que desculpe a atitude do meu vendedor. Terei uma conversa muito sria com ele e com os outros funcio
nrios tambm. No quero qualquer tipo de discriminao aqui dentro.  John 0'Neill indicou-lhes um sof de veludo.
 Por favor, sentem-se.
Allison e Blue se sentaram.
	No sabia que voc tambm trabalhava com jias  Blue comentou.
	Estou no ramo h pouco tempo. Na verdade, essa  a minha primeira loja. Estou querendo diversificar os meus investimentos.
De novo, John O'Neill se desculpou pela atitude do vendedor. Em seguida, colocou sobre uma mesinha, diante do sof, vrios mostrurios.
Allison, que nunca dera muita importncia a jias, se encantou com o que viu. Blue insistiu para que ela ficasse com um conjunto de brincos e colar de diamantes. Allison, no entanto, no quis o presente, mas acabou aceitando um anel em ouro, com uma delicada gua-marinha, e uma gargantilha com um pingente muito semelhante ao anel.
	Tem certeza de que no quer o colar e os brincos?  Blue ainda insistiu, antes de se despedirem de John O'Neill e deixarem a loja.
	Tenho certeza absoluta  ela respondeu, convicta.  Nunca gostei de ostentao, Blue.
Naquele dia, os dois almoaram num dos restaurantes que havia no shopping, e, de l, Blue resolveu lev-la at uma concessionria de automveis.
	Voc est pensando em comprar um outro carro?  ela quis saber quando j estavam entrando no estabelecimento.
	Ainda no tenho muita certeza. Mas vim aqui para ver se existe algum lanamento novo. Sempre dou uma passada por essa concessionria, quando estou em Dlias.
E havia, sim, vrios lanamentos, que foram mostrados a Blue pelo prprio dono do local.
	De qual modelo voc gostou mais, Allison?  Ao perguntar, Blue olhou de maneira cmplice para o dono da concessionria.
	Achei aquele ali  ela apontou , o cinza-claro, muito bonito. E o acabamento, tanto o externo, quanto o interno, so perfeitos. O motor tambm  muito possante.
	Voc gostou mesmo dele?
	Gostei, sim. E discreto, esportivo e combina com voc, Blue.
	No prefere o vermelho?
	No, prefiro o cinza-claro.
	Pois ele  seu.
	Voc enlouqueceu? Acha que um carro desse tipo  para se dar de presente?  Ela riu, achando que Blue estivesse brincando.
	J disse que estou muito feliz por ter algum para presentear, no disse?
	Blue, esse carro  muito caro.
	Eu sei. Alis, todo mundo sabe que esse carro  muito caro. Mas, por favor, no faa como o colar e os brincos que no quis aceitar.
	Blue, j lhe disse que no gosto de ostentao.
	Allison, como voc mesmo disse, esse carro  bastante discreto.
	No posso aceitar um presente to caro.
	Voc est com os seus documentos a na bolsa?  ele quis saber.
	Estou.
	Ento, por favor, entregue ao meu amigo Linus.  Blue, com um gesto de cabea, indicou o dono do estabelecimento.
	Blue, eu no posso aceitar.
	Quem lhe disse que no?
	Desculpe-me, mas eu no posso aceitar o carro.
	Pode. Pode, sim, senhora.  Blue se dirigiu ao dono da concessionria.  Vamos levar o cinza-claro. Quero que os documentos saiam em nome da minha esposa.
	Claro, sr. Summer.
	E, por favor, entregue o carro na minha nova casa. Vou deixar o endereo com voc.
Naquele dia,  noite, Allison se perguntava se Blue seria realmente um homem muito generoso ou se era a insegurana que o fazia sentir necessidade de gastar com presentes caros para ela. Teve muita vontade de fazer-lhe tal pergunta, mas no ousou. Ao seu lado, como vinha acontecendo desde que haviam chegado a Dlias, Blue dormia, aps t-la acariciado e beijado com muito desejo.
"Por que ser que Blue ainda no fez amor comigo? Ser que o fato de saber que ainda sou virgem o inibiu? Para uma pessoa que agiu de uma maneira to ousada, logo no dia que nos casamos, a atitude dele est me surpreendendo muito. E eu gostaria, sim, de fazer amor com ele. O desejo que sinto por esse homem  grande demais. Desejo, respeito, amor e muito carinho. No consigo mais imaginar a minha vida sem ele. Mas como Blue no acredita no amor...". Allison, aflita, mordeu o lbio inferior. "Tenho medo de sofrer, tenho medo que esse amor se torne a minha runa. Ento no saberei o que fazer da minha vida e, com toda certeza, vou me tornar uma pessoa amarga."
Allison demorou para dormir, mas, quando conseguiu, se viu imersa em pesadelos terrveis. Em um dado momento, sentiu que mos fortes a seguravam e pediam para que acordasse. Apavorada, ela abriu os olhos e deu de cara com Blue bastante aflito.
	Calma  ele pediu, enquanto a abraava.  Foi s um pesadelo.
	Meu Deus, como senti medo.
	J passou, Allison. J passou. V se dorme de novo, voc precisa descansar.
	No quero mais dormir  ela disse, de maneira insegura.  Se dormir de novo, terei o mesmo pesadelo.
	Mas  claro, que voc no ter o mesmo pesadelo.  Blue parecia que estava se dirigindo a uma criana, tamanho era o carinho e considerao com que a tratava.
	Me abrace, Blue.
	Mas eu j estou abraando voc.
	Quero que me abrace forte..
	Assim?  ele perguntou, estreitando o abrao.
	. Assim mesmo.
	Est se sentindo melhor?
	Estou me sentindo mais protegida.
	Voc tem sempre pesadelos, Allison?
	Fazia tempo que eu no tinha um. Antigamente, quando era criana, a minha tia muitas vezes precisou dormir comigo na minha cama. Depois, com o tempo, eles foram rareando, e agora dificilmente tenho pesadelos.
	Voc tem pesadelos quando est se sentindo insegura?
	Eu acho que sim.
	E o que a est deixando insegura?  ele quis saber.
	No sei. Acho que o fato de termos feito um casamento sem amor. E o amor, para mim, sempre foi muito importante.
	Existem coisas mais importantes do que o amor. O companheirismo, a lealdade, o afeto, por exemplo.
	E a primeira vez que encontro algum que no acredita no amor.
	No quero que se sinta insegura por causa disso. Jamais farei algo que possa mago-la.

	Por favor, Blue, no faa promessas que no possa cumprir.
	Mas  verdade, Allison, jamais farei nada que possa mago-la.  Ele beijou-lhe a testa.  Agora, v se volta a dormir. Eu estarei aqui ao seu lado.
	Blue, posso lhe fazer uma pergunta?
	Pode fazer a pergunta que quiser.  Ele voltou a beijar-lhe a testa.
	Voc... voc... gosta um pouquinho de mim?
	Um pouquinho, no. Eu gosto de voc um pouco. Satisfeita?
Allison sorriu e respondeu:
	Eu acho... que... sim.
CAPITULO V

Por temer que novos pesadelos invadissem-lhe o sono, no foi nada fcil para Allison voltar a dormir naquela noite. Mas ela, para no incomodar Blue, fechou os olhos e ficou quieta, mergulhada nos prprios pensamentos, nas suas inseguranas.
"Mas ele disse que gosta um pouquinho de mim. Bem, na realidade Blue disse que gosta de mim um pouco. S no estou entendendo o motivo que o leva a no querer fazer amor comigo. Afinal, sei que ele me deseja. E eu tambm o desejo muito. Cada vez mais. Com toda certeza, o fato de saber que ainda sou virgem o inibiu. Acho que ele tinha uma ideia bastante equivocada a meu respeito. Blue, na certa, acreditava que eu j tivesse me relacionado com vrios homens."
 Voc est dormindo?  Blue perguntou baixinho.
A maneira doce e sensual de Blue fazer-lhe a pergunta deixou Allison paralisada, profundamente insegura. E ela se manteve calada.
Blue, por sua vez, acreditando que ela j tivesse dormido, ajeitou o travesseiro e, logo depois, caiu num sono profundo.
"No deveria ter feito isso", ela se recriminou em pensamento. "Deveria ter lhe dito que ainda estou acordada."
Insegura, Allison se perguntava como mudar aquela situao. Porm, antes de dormir, um pensamento lhe ocorreu: talvez Blue, naquele incio de vida em comum, mesmo de maneira inconsciente, estivesse querendo apenas namor-la. Um namoro  moda antiga!
Ao acordar, na manh seguinte, Allison no o encontrou na cama. E, ao lembrar-se do seu ltimo pensamento antes de adormecer, ela sorriu.
"Ser? Ser que Blue est querendo apenas me conhecer melhor? Se  isso o que est acontecendo, ele realmente  um homem muito especial."
Allison se levantou, escolheu uma roupa para vestir e foi tomar um banho. A gua tpida do chuveiro a deixou bastante relaxada, e ela sentiu vontade de voltar para a cama e dormir mais um pouco. Mas resistiu  ideia. Afinal, aquele seria o ltimo dia que ficaria em Dlias.
Ao sair do banheiro, Allison usava uma cala creme de linho e uma camiseta azul-anil. No quarto, calou um par de sandlias e foi para a sala, onde encontrou Blue  mesa, lendo uma revista.
 Dormiu bem?  ele lhe perguntou.
	Dormi.  Allison lhe sorriu,
	No teve mais pesadelos?
	Graas a Deus, no.
	Acabei de pedir o nosso caf da manh. Sente-se, por favor.
Allison sentou-se e, de repente, no sabia o que dizer.
	Estava lendo um artigo muito interessante.
	E o que diz o artigo?  ela quis saber, interessada.
	O artigo fala a respeito dos pases onde as pessoas esto passando fome.
	E inacreditvel que, at hoje, existam milhares e milhares de pessoas famintas pelo mundo.
	Uns com tanto, outros sem nada.  Blue balanou a cabea em negativa. - Gostaria de poder fazer alguma coisa para ajudar.
	Acho essa sua vontade muito louvvel.
	Assim que voltar para casa, vou falar com o meu advogado. No acho justo eu ter tanto dinheiro, quando sei que tem muita gente nessas condies.  Blue lhe mostrou uma foto onde crianas em estado de inanio olhavam desoladas para a cmera.
	Meu Deus, isso  muito triste.  Os olhos de Allison se encheram de lgrimas.   um absurdo imaginar que neste instante pessoas sofrem tanto. Se todos fizessem um pouco, tenho certeza absoluta de que o mundo seria muito melhor.
	Eu nunca passei fome, Allison. Mas cheguei muito perto disso.
	No meu caso, felizmente, sempre tive tudo na vida.
	Mas isso no fez de voc uma pessoa ftil. Detesto pessoas fteis. Hoje em dia, as mulheres esto apenas interessadas em dinheiro.
	No generalize, Blue. Nem todas as mulheres agem dessa maneira. E tambm existem muitos homens interessados apenas em dinheiro.
	E verdade  ele teve de concordar.  Infelizmente,  verdade.
Uma leve batida na porta anunciou a chegada do caf da manh. Blue se levantou e foi atender a porta. Ao voltar, empurrava um carrinho. Allison, por sua vez, tinha pego a revista que ele estivera lendo e perguntou:
	Voc leu esse outro artigo?
	Qual deles?  Blue comeou a servir o caf da manh.
- Esse aqui, que fala sobre o divrcio no mundo.
	No, ainda no li. No me interessei por ele. Casamento, para mim,  para a vida toda.
	Tem certeza do que est falando, Blue?
	Tenho. Eu tenho certeza absoluta.  Ele sentou-se.  Casamento para mim  coisa sria, Allison.
"No consigo entender esse homem. Blue, com o que acabou de dizer, demonstra uma certa incoerncia. Se casamento para ele  coisa sria, por que se casou comigo?"
	Posso lhe servir o suco?
	Ainda no, muito obrigada. Primeiro quero tomar um copo de leite.
	Ento vou lhe servir o leite.
Um silncio muito grande caiu entre os dois. Allison estava com muita vontade de lhe perguntar o que, na realidade, o levara a se casar com ela. Mas no ousou.
"Mas agora eu sei exatamente o que me levou a me casar com Blue. Eu o reconheci como um homem bom e sensvel, desde que nos conhecemos. Sob esse aspecto meio rude de caubi, existe uma flor de pessoa."
	Posso saber em que est pensando?  Blue lhe perguntou, assim que acabou de lhe servir o leite.
	Em nada muito importante, em nada muito especial 	ela respondeu, morrendo de medo de ficar vermelha.
	Eu acho que voc estava pensando em algo importante, sim. Por favor, me diga.
	Na verdade, estava pensando em ir a uma livraria. 	Allison se viu obrigada a mentir.  Estou querendo com prar alguns livros.
	Podemos fazer isso antes de irmos ao parque de diverses.
	O qu?  ela perguntou sorrindo, muito espantada. 	Voc est querendo ir a um parque de diverses?
	Claro que sim. No tinha lhe dito?
- No, eu no estava sabendo de nada. Mas acho que agora voc no vai encontrar nenhum parque de diverses aberto.
	Ser que no?  Blue perguntou, bastante frustrado.
	Eu acho que no.
	Se  assim, podemos ir ao parque  noite. Que tal?
	Acho a sua ideia excelente. Eu adoro parque de diverses.
	Voc gosta da montanha-russa?
	De jeito nenhum! Eu gosto muito de andar de roda-gigante. 
	Pois eu nunca andei de roda-gigante antes. Nem de montanha-russa.
	Pois ns dois podemos ir juntos na roda-gigante.
	E na montanha-russa?
	Blue Summer, sinto muito lhe informar, mas na montanha-russa voc vai sozinho.
	Ento no vai ter graa.
	Mas  claro que vai.
	Tudo bem  ele concordou, rindo.  Vou sozinho passear na montanha-russa.
O caf da manh terminou num clima bastante leve e alegre.
Os dois deixaram o hotel e, a p, foram para uma livraria. L chegando, ela notou que Blue ficou meio esquivo.
"Ele deve estar se sentindo inseguro."
Com muito carinho, Allison sugeriu-lhe alguns clssicos da literatura. Blue, de imediato, aceitou-lhe a sugesto e, quando deixaram a livraria, ele se mostrava muito feliz, com as sacolas que levava nas mos.
	Se continuar assim voc vai fazer de mim um intelectual  ele brincou.  Mas nunca se esquea, sra. Summer, que eu sou um caubi.
	E voc se orgulha muito de ser um caubi, no ?
	Claro que me orgulho. Jamais vou negar as minhas origens, Allison.
	Isso  muito bom. Voc  um homem autntico, Blue Summer.
	E vou continuar assim pelo resto dos meus dias.  Blue abriu um amplo sorriso.  E o que voc quer fazer agora?
	Poderamos deixar as sacolas na portaria do hotel e fazer uma bela caminhada.
	Ento vamos deixar as sacolas no hotel. Em menos de cinco minutos estaremos l.
Aps terem deixado as sacolas na portaria do hotel, Allison e Blue resolveram caminhar pelo centro da cidade. Foi muito difcil para ela convenc-lo de que no queria comprar nada.
	Mas aquele vestido branco iria cair muito bem em voc  ele disse, quando j se afastavam de uma vitrine.
	Com toda certeza.  Ela sorriu.  Acontece, Blue Summer, que j comprei muita roupa.
	Allison, vamos voltar. Vou adorar poder presente-la com aquele vestido.
	De jeito nenhum  ela disse, decidida.
	Voc age como se no desse importncia para a prpria aparncia.
	Mas eu dou importncia para a minha aparncia, sim. Afinal, a minha auto-estima est funcionando muito bem.
E voc sabe disso.
	 verdade... Mesmo assim, me espanta o fato de voc ser to comedida e nada consumista.
	Acho que todos devemos aprender a consumir exatamente aquilo de que necessitamos.
	Eu raramente me preocupo em comprar algo para mim.
	E voc acha que j no percebi isso?
	Aquela casa que constru foi uma extravagncia que me permiti. Vivi em lugares que voc nem imagina. De repente, tive muita vontade de morar numa casa ampla e confortvel, onde meus filhos pudessem correr  vontade. Quero ter muitos filhos.
	E mesmo?  Allison lutava para no ficar vermelha. Quantos?
	No mnimo quatro.
	E quanto ao sexo? Voc tem preferncia?
-  claro que, como todo homem, iria adorar ter um garoto. Mas se, de repente, eu tiver s menina, no vou dar a menor importncia. Tambm vou adorar ensin-las a cavalgar. Minhas filhas, se quiserem, podem at participar de rodeios.
	Eu  que no iria gostar de ver uma filha montada no lombo de um boi.  Allison riu.  Eu iria ficar apavorada.
	E se fosse um filho? Voc tambm ficaria apavorada?
	Com toda certeza.
Os dois continuaram conversando de maneira amigvel. Allison, ento, sugeriu que visitassem um museu. A sugesto foi aceita por Blue, e, ao sarem de l, os dois foram almoar.
" Que tal a comida?  Blue perguntou, quando j se encontravam  mesa saboreando ravili.
	A comida est deliciosa. Adoro massa.
	Eu tambm gosto muito de massa. Na verdade, eu gosto mesmo  de comer  ele comentou, meio sem graa.
	Voc come muito bem, Blue Summer.
	Muito bem e muito. Mas no tenho de me preocupar com o meu peso. Alis, nunca tive de me preocupar com o peso. Gasto muita energia trabalhando.
	Voc  um homem bastante estranho. Meio indecifrvel, at  ela comentou, mas logo se arrependeu.
	Por que est dizendo isso, Allison?
	No sei. Algo me diz que voc no  feliz.
	Mas  claro que sou. Hoje consegui tudo o que sempre pretendi da vida.
	At um casamento sem amor?
	J lhe disse que no acredito no amor.
	... Voc me disse. Acontece que no acreditei.
	Pois pode acreditar,  a mais pura verdade.
	Voc pode dizer quantas vezes quiser, Blue. S que eu no acredito mesmo em voc.
	Se  assim...  Ele deu de ombros.
	Para mim voc sofreu alguma desiluso amorosa.
	Est a uma das vantagens de no se acreditar no amor: jamais conseguiro me decepcionar por causa dele.
	Me cite uma outra vantagem.
	No preciso de me preocupar com cimes, por exemplo.
	Para mim, no  que voc no acredita no amor. Voc apenas se protege dele, para no sofrer.
	Voc est totalmente equivocada, Allison. Eu no me protejo contra o amor.
	Estou achando que voc acredita mesmo no que diz. Mas vamos mudar de assunto.
	Sobre o que voc quer falar?
	Talvez pudssemos falar sobre a maravilha de noite que teremos hoje. Faz muitos anos que no vou a um parque de diverses.
Daquele momento em diante, apesar do assunto ser muito agradvel, uma energia pesada comeou a pairai" sobre os dois.
"No deveria ter dito que no acredito nele. No poderia ter dito que Blue se protege do amor. Talvez seja uma atitude inconsciente dele que..."
	Posso pedir a contaele interrompeu-lhe os pensamentos.
	Claro que sim.
	No quer tomar um caf?
	Muito obrigada, Blue. Estou satisfeita.
	Talvez possamos tomar um caf, depois do cinema.
	Voc est pensando em ir ao cinema agora?
	Acho que seria uma boa ideia. Est muito quente para ficarmos caminhando.
	Tudo bem: ns vamos ao cinema, ento.
Aps o cinema, Allison e Blue resolveram passar num barzinho para tomar caf.
	E o que voc achou do filme?  ela quis saber, quando j se encontravam sentados  uma mesa de canto.
	Quer que eu seja sincero?
	Claro.  Ela sorriu.
	No gosto de filmes romnticos. Prefiro filmes de ao.
	Mas o filme que ns assistimos  lindo, Blue. Me emocionei muito com ele.
	Eu vi. Voc se emocionou tanto que at chegou a chorar.
	Quer dizer, ento, que voc viu que eu chorei?
	E como poderia deixar de notar, se voc chegou at a soluar?
	Desculpe-me. Atrapalhei voc?
	No, voc no me atrapalhou, mas fiquei muito preocupado. No gosto de ver ningum chorar.
	No suportei o momento em que os dois tiveram de se separar.
	A vida une, mas tambm separa as pessoas, Allison.
	E acha que eu no sei disso?
A garonete lhe serviu o caf, interrompendo o dilogo por alguns instantes.
	Voc nunca chorou, Blue?
	No. No que eu me lembre.
	Por qu? Voc ainda acredita que homem no pode chorar?
	Acho que um homem pode, sim, chorar, se sentir necessidade. Eu jamais senti necessidade de chorar.
	E inacreditvel. Nem quando voc era criana? Voc no chorava nem quando era criana?
	No me lembro  Blue afirmou. Depois, num tom de voz quase sussurrante, continuou:  Se eu chorava quando era criana,  algo que jamais irei me lembrar. Existem partes da minha infncia que se apagaram da minha memria.
Allison tomou um gole do caf e se manteve calada.
	O que eu me lembro muito bem  que sempre tive de trabalhar muito para sobreviver. Para chegar at aqui, comi
o po que o diabo amassou. Mas de uma coisa eu me orgulho jamais fiz nada de errado em toda a minha vida.
	Da prxima vez que formos ao cinema, vamos escolher um filme de bastante ao.
	Na verdade eu adoro filme de fico cientfica, embora tenha visto apenas dois em toda a minha vida.
	S dois, Blue?
	E. Bem, isso foi antes de encontrar petrleo nas minhas terras. Depois, vi mais dois. No total, foram quatro filmes de fico cientfica.
	 inacreditvel..
	Pois pode acreditar.
Allison tomou um gole de caf e depois sugeriu:
	Vamos dar uma chegadinha naquele shopping que...
	Qual? Est se referindo ao shopping recm-inaugurado?
	Estou.
	E o que est pretendendo fazer por l?
	Quero comprar...
	Vamos, continue  Blue pediu, curioso.
	Bem,  surpresa. L voc ficar sabendo o que estou pretendendo comprar.
	Para quem no gosta de comprar nada, deve ser mesmo algo muito importante.
	, sim. Quero comprar algo bem importante.
Do barzinho, os dois seguiram de txi para o shopping. Ao entrarem no elevador, Blue acionou o quinto andar. Allison, por sua vez, acionou o boto que os levaria ao quarto.
	Mas  no quinto andar que tem aquelas roupas femininas fantsticas.
	Quem disse que eu vim aqui para comprar roupas?
	E no veio?
	No, no vim.
A porta do elevador se abriu e os dois desceram.
	O que voc vai comprar nesse andar, Allison? No estou entendendo.
Sem nada a dizer, Allison entrou num estabelecimento que vendia vdeos e se encaminhou diretamente para a parte onde estavam expostos os de fico cientfica. Sem muito critrio de escolha, ela pegou dez filmes e os entregou a Blue. Depois, pegou mais seis e ficou com eles nas mos.
	Esse  o meu presente de casamento para voc, sr. Summer.  Allison se encaminhou para o caixa.  E ainda tem mais.
	Mais o qu?
	Presentes,  claro. Ou melhor: ainda tem mais um presente.
Feliz como uma criana, Blue deixou a loja com duas sacolas nas mos. Mesmo assim, reclamou:
	S no gostei de voc ter pago a conta.
	Eu quis lhe dar esses vdeos. E, no se preocupe, pois tenho algum dinheiro no banco.
	Voc deveria guardar o seu dinheiro, Allison.
	Blue, depois de tudo o que j gastou comigo, ser que no tenho o direito de lhe presentear com algumas fitas de vdeo?  Ela entrou numa outra loja e se aproximou do local onde estavam expostos vrios televisores e videocassetes.
	Posso ajud-la em alguma coisa?  o vendedor, solcito, lhe perguntou.
	Estou procurando um bom videocassete.
	Este aqui  excelente.  O vendedor apontou um aparelho.  Apesar de no ser o mais caro,  o melhor.
	Pelo jeito encontramos uma pessoa bem honesta  Blue comentou, sorrindo.
	E dessa maneira que consegui me tornar o melhor vendedor desta rede de lojas  o rapaz disse, orgulhoso.
	Se a gente trata o cliente com dignidade, ele volta.
	Disso eu no tenho a menor dvida  Blue concordou.
	Vou levar o aparelho que o senhor me indicou. Quando  que podem entreg-lo?
	Hoje mesmo, senhora. Daqui no mximo a duas horas ele estar no endereo que nos deixar.
Mais uma vez, AUison se encaminhou para o caixa e fez questo de pagar a conta. Depois, deixou com o vendedor o endereo do hotel. De repente, uma ideia lhe ocorreu, e ela perguntou ao vendedor se poderia deixar os filmes para serem entregues junto com o videocassete.
	Claro que sim  o vendedor assegurou.  E, como lhe disse, em duas horas no mximo tudo estar no endereo que nos deixou.
	Pronto! Allison exclamou, feliz, quando caminhavam pelo corredor do shopping.  Agora voc vai poder assistir a quantos filmes de fico cientfica quiser.
	Voc  uma mulher imprevisvel, sra. Summer.
	Sou mesmo?  Ela o fitou intensamente nos olhos.
	Pode acreditar em mim.
Do shopping, Allison e Blue seguiram para o parque de diverses, onde ficaram at em torno das noves horas da noite. Depois, rindo muito, voltaram para o hotel.
Na portaria lhes avisaram que as encomendas haviam chegado.
	Por favor, pea para algum lev-las at a nossa sute 	Blue disse  pessoa que tinha lhes transmitido o recado.
	Farei isso imediatamente, senhor.
Ao entrarem na sute, Blue deu um forte abrao em Allison.
	Posso saber o motivo desse abrao?  ela perguntou espantada e muito trmula.
	Estou lhe agradecendo o dia fantstico que passamos juntos. E os presentes maravilhosos que voc me deu.
	Se  assim que eu consigo abraos to gostosos, acho que vou lhe comprar presentes todos os dias.
 No, voc no precisa comprar presentes todos os dias para mim s para ganhar um abrao  Blue respondeu, de repente, bastante intimidado e se afastou dela.  Agora, se me der licena, vou tomar um banho.
CAPITULO VI

Naquela noite, logo depois do banho, Blue foi para uma saleta onde tinha uma televiso e um videocassete e, sentado no cho, comeou a assistir a um dos filmes que havia ganhado de Allison. Ela, por sua vez, sentada num pequeno sof, estava se divertindo com a maneira infantil que ele se comportava diante das imagens que desfilavam na tela. Cinco minutos depois, Blue comentava, meio frustrado:
	Que pena... O filme terminou...
	E terminou de uma maneira catastrfica.
	E verdade.  Ele, ento, olhando para Allison, sugeriu:  Sente-se comigo aqui no cho.
	Prefiro ficar no sof.
	Por qu?
	Porque a no cho vou me sentir desconfortvel.
	Voc  quem sabe.  Blue lhe sorriu e sugeriu:  Vamos assistir a um outro filme?
	Antes, eu gostaria de jantar. Estou com um pouco de fome.
	Claro!  Blue se levantou, interfonou para o servio de atendimento aos hspedes e pediu que lhes levassem o jantar. Depois, se encaminhou at a janela e ficou olhando a noite.
	Algum problema, Blue?  Allison, que acabara de entrar na sala, quis saber.
	No, mas estava pensando no quanto ainda no estou acostumado com o dinheiro que tenho. Jamais passou pela minha cabea que poderia comprar um videocassete. Jamais passou pela minha cabea que poderia comprar quantos filmes eu desejasse.
	 mesmo?
	Acho que, no fundo, continuo a pessoa que fui antes, quando mal tinha dinheiro para comer.  S ento Blue virou para encar-la.  Voc teve uma ideia brilhante, Allison.
	A que voc est se referindo?
	Aos presentes que me deu.
	Eu notei que, l na sua casa, s tem uma pequena televiso de quatorze polegadas.
	Achei que seria mais do que suficiente para que eu pudesse assistir aos noticirios, quando sentisse vontade.
 Ele deu um longo e profundo suspiro.  E jamais, nas inmeras vezes que me hospedei em um hotel, me dei conta de que eles tm videocassete para os hspedes.
	Que eu me lembre, a maioria dos hotis nos quais me hospedei tem uma excelente aparelhagem de vdeo e som.
	Pois ...  Blue balanou a cabea em negativa.  Mas s agora e estou sabendo do fato...
	Com essa aparelhagem toda que tem aqui, ns nem precisamos desfazer o embrulho do videocassete.
	 verdade.
Allison e Blue continuaram conversando sobre outros assuntos.
O jantar chegou, e, quando os dois j se encontravam  mesa, ele voltou ao assunto do videocassete:
	Nem posso acreditar que agora vou assistir ao filme que quiser.
	Pois vai, sim. E, daqui a um tempo, voc poderia comprar uma televiso bem maior e coloc-la na saleta.
	A qual das saletas voc est se referindo?
	Aquela que fica ao lado da sala de jantar.
	Acho que vou fazer isso,  sim  ele concordou, satisfeito.
Aps terem terminado o jantar, Blue resolveu ir assistir a um dos outros filmes.
Allison, por sua vez, ficou na sala de jantar lendo uma revista. Porm, sua ateno logo se desviou do artigo, e ela, em pensamento, comeou a se perguntar se o casamento dos dois no estaria fadado a se transformar numa unio apenas fraternal.
"Eu no quero que isso acontea. A cada instante que passa, admiro mais e mais a integridade e a ingenuidade desse homem. Imagina, com tanto dinheiro... E, mesmo assim, Blue continua se privando de coisas to comuns quanto um simples videocassete."
Allison permaneceu sentada na poltrona por mais uns quinze minutos. Depois, foi para a saleta onde Blue continuava assistindo a um outro filme de fico e ficou encostada ao batente da porta.
	Sente-se aqui comigo  ele pediu, enquanto batia a mo sobre o tapete.
	Acho que vou dormir, estou muito cansada.
	Sente-se um pouco aqui comigo. O filme est timo.
	No estou com vontade, Blue.
	Por favor, Allison, sente-se aqui comigo.
	O filme  mesmo bom?
	O filme  excelente. Um grupo de cientistas e pessoas comuns partiram numa misso para povoar Marte.
	E eles conseguiram?  ela perguntou, sorrindo, ainda encostada ao batente da porta.
	Eles ainda no chegaram l.  Blue voltou a bater a mo sobre o tapete. Venha, sente-se aqui.
Allison resolveu atender-lhe o pedido e sentou-se ao lado dele.
	Chegue mais perto de mim  Blue pediu.
	No quero atrapalh-lo.
	Voc no vai me atrapalhar, venha.
Allison, com o corao acelerado dentro do peito, se aproximou mais dele. Blue, ento, estendeu o brao e a puxou para junto se si. 
Aquele gesto a perturbou ainda mais. Blue, no entanto, voltou a prestar ateno no que se passava na tela. Frustrada, Allison acabou adormecendo.
Na manh seguinte, ao acordar, Allison levou o maior susto. Ela se encontrava no cho da saleta, abraada a Blue.
"Dormi no cho.  a primeira vez que isso acontece comigo."
Com medo de acord-lo, Allison permaneceu onde estava e se sentiu muito bem protegida nos braos daquele homem que parecia estar querendo conhec-la melhor, antes de que um relacionamento mais ntimo acontecesse entre os dois.
"Blue est mesmo agindo comigo como se fssemos apenas namorados. s vezes tenho a sensao de que ele precisa desta fase, uma fase que, talvez, jamais tenha experimentado na vida."
O tempo passava e Allison continuava nos braos de Blue. De repente, um desejo, uma vontade imensa de beij-lo se apoderou dela.
"No, no posso fazer isso. De jeito nenhum! Blue pode acordar e eu vou me sentir envergonhada, completamente perdida."
Mas o desejo, a vontade de beij-lo aumentava.
"Se eu fizer isso, posso me arrepender."
Allison suspirou longamente.
"Mas se no fizer, posso tambm acabar me arrependendo."
Devagar, com muito cuidado, Allison roou-lhe os lbios com os dela, numa carcia tmida. Blue, nem se mexeu.
Allison, ento, resolveu realmente beij-lo. E foi o que fez. Porm, com medo, logo se afastou. Blue continuou imvel.
"Pelo jeito, Blue vai continuar dormindo. Ele deve ter ficado acordado at tarde."
Com muito cuidado, Allison comeou a se afastar de Blue e, finalmente, conseguiu se levantar. Ao deixar a saleta, ela caminhou devagar at o banheiro e resolveu tomar um banho de imerso.
Com a gua perfumada cobrindo-lhe o corpo, Allison pensava em como fora ousada ao beij-lo por duas vezes.
"E no me arrependo do que fiz. Definitivamente: eu amo Blue Summer, e, hoje, a minha vida sem ele no teria o menor sentido."
Uma leve batida na porta do banheiro foi o suficiente para que Allison levasse um grande susto.
" o Blue!"
	Allison, est tudo bem com voc?
	Est, sim  ela respondeu, no tom mais alto de voz que conseguiu.
	Faz um tempo que voc est trancada a dentro.
	J vou sair.
	Certo. E eu vou pedir que nos tragam o caf da manh. Depois ns vamos voltar para casa.
	Tudo bem.
Allison e Blue deixaram Dlias logo aps o caf da manh e seguiram para Chaney. Quando se encontravam a uns vinte quilmetros de casa, Blue pegou o celular e ligou para Edward, o mordomo, avisando que estavam chegando.
	E bom voltar para casa  ele comentou com Allison.
	Claro... S que ainda  muito difcil para mim imaginar que agora no estou morando eom os meus tios. Vai demorar um pouco at que eu sinta que a sua casa  realmente minha.
	Vou fazer de tudo para que isso venha a acontecer logo. E aquela casa, Allison,  nossa.
	Como acabei de lhe dizer, vai demorar um pouco at que eu me acostume com a ideia.
	 to difcil assim?
	Para mim, acho que vai ser, sim. Depois que meus pais morreram, s morei naquela casa imensa dos meus tios.
Os dois permaneceram em silncio at chegarem em casa. Na varanda, eles foram recepcionados por Edward, pela sra. Burn, a governanta, pela srta. Smith, a copeira, e pela srta. Tilly, a cozinheira.
	Fizeram uma boa viagem?  o mordomo perguntou, com extrema polidez.
	Fizemos, sim, Edward.
	Isso  muito bom.  O mordomo fez uma leve inclinao com o corpo.  Douglas precisou viajar, para visitar um irmo que est doente, senhor.
	 mesmo?  Blue perguntou, preocupado.
	Ontem ele ligou e disse que logo estar de volta.
	Espero que no seja nada grave.
	E no , senhor. O irmo de Douglas sofreu uma cirurgia, mas j est se recuperando.
	Otimo.
	Agora vou pegar as malas no carro, senhor.
	Eu mesmo fao isso, Edward, no precisa se preocupar.
	De maneira alguma, senhor. E obrigao minha retirar as malas do carro. E melhor fazer algo mais interessante, senhor.
As trs empregadas sorriam, sem participar da conversa.
	Algo mais interessante?  Blue olhou intrigado para o mordomo e depois para Allison.
	Claro, senhor. Se me permite, a tradio pede que agora o senhor tome a sua esposa nos braos e entre com ela dentro de casa.
	 mesmo?  Blue perguntou, espantado.
	Pode acreditar em mim, senhor.
	Se  assim....  Blu ergueu Allison nos braos e entrou na casa recm-construda. Quando chegaram na sala, ele a colocou no cho.  Seja muito bem-vinda, sra. Summer.
	Muito obrigada, Blue.
	Ser que o Edward vai se ofender se eu for ajud-lo com a bagagem?
	No sei.  Ela, sorrindo, deu de ombros.  Nunca convivi com um mordomo antes.
A sra. Burn, que passava pela sala, ouviu a conversa e disse:
	Se me permite, sr. Summer, acho melhor que dei tudo por conta do Edward. Ele se sentir ofendido, caso o senhor insista em ajud-lo.
	 mesmo?  Blue perguntou, muito espantado.  Por qu?
	Edward  uma pessoa muito metdica e gosta de fazer tudo do jeito dele.
	Se  assim...
	Os senhores vo tomar um banho antes do almoo?
	No, vamos almoar agora  Blue respondeu.
	Ento o almoo ser servido em quinze minutos.
	timo.  Blue olhou para Allison e convidou:  Vamos subir?
	Vamos.
Lado a lado, os dois subiram as escadas. Quando se encontravam diante da porta do quarto que, daquele dia em diante, ocupariam juntos, Blue tocou-lhe de leve os ombros e disse:
	A tradio tambm manda que o noivo carregue a noiva nos braos para dentro do quarto.
	E mesmo?
	Para dizer a verdade, no sei.  Ele sorriu, encabulado.  Mas estou morrendo de vontade de carreg-la nos braos outra vez.
	Se  assim, Blue Summer, pode me erguer de novo.
Blue a ergueu nos braos e entrou no quarto. Ao coloc-la no cho, Blue a puxou para junto de si e, aps acariciar-lhe o rosto, disse baixinho:
	Espero que a gente possa ser bastante feliz aqui nesta casa, Allison. Vou fazer de tudo para que ns dois sejamos o casal mais feliz deste mundo.
"Como poder haver felicidade entre ns dois, se voc no me ama?", ela teve vontade de perguntar.
	Como ? No vai dizer nada?
	Cia... claro que vou... Eu tambm espero que sejamos o casal mais feliz do mundo.
	Bem  ele sorriu, satisfeito , voc conhece esse lugar muito bem. Temos dois banheiros, dois closets, mas... apenas uma cama de casal.
Ao ouvir aquilo, Allison sentiu um ligeiro arrepio percorrer-lhe o corpo. Para disfarar, aproximou-se da cama e comentou:
	Esta colcha  linda.
	Pedi a sra. Burn que nos esperasse com as roupas de cama mais bonitas que pudesse encontrar. E acho que ela seguiu  risca as minhas ordens.
	Vou dar uma olhada no meu banheiro.
L tambm tudo estava impecvel. Allison, que havia entrado no banheiro, certa de que Blue no a estivesse acompanhado, se assustou ao v-lo junto  porta.
	Desculpe, no resisti  vontade de ver se tudo aqui tambm estava em ordem.
	Est tudo maravilhoso, Blue.
	Essa banheira de hidromassagem vai ajud-la a relaxar.
	Se vai... Pelo jeito, vou ser muito mimada aqui dentro.
	Conforto era o mnimo que eu poderia oferecer a minha esposa.
	 estranho ouvir essa palavra.
	Qual palavra?  Blue quis saber.
	Esposa.
	Mas voc  minha esposa.
	Eu sei que sou. Mesmo assim  estranho. Ainda no me acostumei com o fato de ser uma mulher casada.
	Logo, logo voc se acostuma. Vamos descer para almoar?
	Vamos.  Allison deixou o banheiro e se apressou em sair do quarto. Por que aquela dependncia da casa a deixava to insegura, se havia passado vrios dias sozinha com Blue num hotel?
Espero que a srta. Tilly tenha feito um almoo bem gostoso.
	Com certeza ela fez, Blue.
Sobre a mesa da sala de jantar, tinha sido colocada uma toalha de linho branco, finamente bordada. As louas eram de porcelana inglesa e os talheres de prata. Sobre o centro da mesa, tambm num vaso de porcelana, um buque de rosas amarelas.
	A mesa foi arrumada com muito esmero  Allison comentou, encantada.
	Pelo jeito, eu no vou ter a menor funo aqui dentro desta casa.
	Por que est dizendo isso, Blue?
	Com tantos empregados...
	Voc  o dono desta casa, sr. Summer. Portanto, no tem a menor razo para se sentir enciumado.
	Eu sou l homem para sentir cimes?  Blue se apressou em dizer.  Acho melhor ns nos sentarmos.
E o almoo foi servido, tambm com muito esmero.
	Essa cozinheira  excelente  Allison comentou quando j estavam saboreando o prato principal.  Se no tomar cuidado, vou acabar engordando.
	No se preocupe com isso. Alguns quilos no vo lhe fazer mal, Allison.
	Com isso est querendo dizer que estou muito magra?  ela se fez de indignada.
	De jeito nenhum. Na minha opinio, voc est tima. E que no concordo com essas histrias das mulheres passarem fome s para manterem o peso. Tem gente que fica doente por causa disso.
	Nunca fui de comer muito, Blue.
	E acha que no percebi isso l em Dlias?
	Mas hoje estou me excedendo. Tambm, com esse rizoto de camaro, com esse peixe assado maravilhoso e com a salada fantstica que saboreamos de entrada...
	Olha, Allison, aqui voc vai ter uma piscina para poder se exercitar. E tambm tem a sala de ginstica. Portanto, no se preocupe tanto com a quantidade de alimento que vai ingerir.
Allison riu e comentou:
	Pelo jeito, voc quer mesmo me ver gorda.
	No, eu quero sempre v-la bem.
Aps o almoo, Blue e Allison foram abrir os presentes que haviam ganhado e que tinham sido colocados em um dos quartos de hspedes. L, os dois conversaram e riram muito.
De repente, a sra. Burn deu uma batidinha na porta do quarto, que havia ficado aberta, e disse:
	Com licena.
	Entre, sra. Burn  Allison respondeu e convidou:  Venha ver quantos presentes lindos ns ganhamos.
	Preciso resolver um probleminha l na cozinha, sra. Summer. Depois a senhora me mostra os presentes. Mas vim aqui avis-la de que a sua tia est ao telefone.
	Minha tia? Que timo! Estou morrendo de saudades dela.  Allison, que se encontrava ajoelhada no cho, levantou-se e correu para atender a chamada no quarto de casal.  Tia Patrcia, que bom falar com a senhora.
	Finalmente voc voltou, minha querida. Como foi a viagem?
	A viagem foi tima, tia.
	E voc se divertiu bastante?
	Nunca tinha me divertido tanto na vida.
	Isso  muito bom. E para onde vocs foram?
- Para Dlias.
	Isso eu sei, Allison. Mas de l vocs viajaram para outro lugar, no viajaram?
	Resolvemos ficar em Dlias mesmo.
	O qu?  a tia perguntou, espantada.  Pensei que fossem passar a lua-de-mel no exterior.
	Blue e eu resolvemos ficar em Dlias, tia. E posso lhe assegurar que foi maravilhoso.
	Ser que ele no quis gastar com viagens longas?
	De maneira alguma. Blue  um homem muito ge neroso, tia.
	Espero que seja mesmo, filha. Voc merece ser feliz.
	Tia, a senhora sabe que felicidade, para mim, nunca esteve relacionada a dinheiro.
	Eu sei. Mas dinheiro sempre ajuda.
Apesar de no ter gostado do que a tia acabara de lhe dizer, Allison resolveu no fazer mais qualquer comentrio a respeito.
	Voc ainda est a, Allison?
	Estou, sim, tia Patrcia.
	Pensei que a ligao tivesse cado. O seu tio est louco para conversar com o Blue sobre negcios. Poderamos jantar todos juntos a na sua casa hoje?
	Bem tia, acho melhor a gente deixar esse jantar para uma outra ocasio. Esse  o nosso primeiro dia aqui nesta casa Eu sei, eu sei disso, mas o seu tio est muito ansioso.
	Olha, tia, pelo que pude perceber, Blue no gosta de conversar sobre negcios em casa. Acho melhor ele e o tio Charles conversarem em outro lugar. No banco, por exemplo.
- Voc me parece meio esquiva, Allison.
	No, mas vou falar com o Blue. Espero que ele possa conversar com o tio Charles na segunda-feira.
	Ele tratou bem voc?  Patrcia Wallace perguntou, com a voz meio abafada.
	Como assim?
	Voc sabe... Blue  um homem muito rude. Blue Summer  um caubi. Ele tratou bem voc?
	Blue  um amor de criatura.
	Nunca vou me perdoar  a tia comeou a chorar.  Nunca vou me perdoar pelo sacrifcio que teve de fazer para salvar o banco. Imagina, ter de suportar um homem to rude como Blue Summer s por nossa causa.
	Tia, acredite em mim, Blue  uma homem surpreendente.
	 verdade que ele tratou bem voc ou est me dizendo isso apenas para me tranquilizar?
	Tia, Blue  o homem mais delicado e gentil que encontrei em toda a minha vida. Ele  uma pessoa muito bondosa.
	E difcil de acreditar. Daquele tamanho!
	Blue  fantstico, tia. E desde quando um homem grande tem de ser deseducado?
	No foi isso que eu quis dizer. Blue sempre me pareceu muito grosseiro. Afinal, ele  um caubi.
	Isso  puro preconceito. Conheo muitos homens que cursaram faculdades, que so esnobes e que no tm um pingo de educao. Se todos homens tivessem um dcimo da gentileza que Blue teve comigo at agora, o mundo seria muito mais feliz.
	Que coisa!  a tia exclamou.  E eu aqui preocupada com voc, sem conseguir dormir, achando que a tivssemos entregue nas mos de um troglodita.
	Pois agora a senhora pode dormir sossegada. Pelo menos no que diz respeito a mim, a senhora no tem com o que se preocupar.
	Graas a Deus!  Patrcia Wallace voltou a exclamar. 	Eu orei tanto!
	Pois as suas oraes foram atendidas.
	Tem certeza de que no quer jantar com seus tios hoje, querida?
	Tenho, sim, tia. Fica para uma outra vez.
	E amanh? No quer vir me fazer uma visita amanh?
	Tenho muita coisa para arrumar aqui e...
	Mas vocs no contrataram vrios empregados?  A tia a interrompeu.
	Claro que sim. Mas existem coisas pessoais que eu mesma quero arrumar.
	Se voc comear a trabalhar, ele vai achar que pode dispensar os empregados.
	Tia Patrcia, por favor, pare com isso  Allison pediu, sorrindo.  Blue est fazendo de tudo para que eu me sinta feliz.
	Isso  agora que vocs acabaram de se casar. Mas ele pode mudar, Allison.
	No acredito nisso.
	No se iluda, filha. Blue Summer  muito diferente dos homens com quem voc j se relacionou. 
	Eu sempre soube disso.
	Garanto que j est arrependida de ter se casado com ele.
	No, no estou  Allison afirmou, com convico.  E, por favor, acredite em mim.
	Jamais pensei que, um dia, voc tivesse de se sacrificar por ns.
	Por favor, pare...  Allison estava ficando impaciente. 	J lhe disse inmeras vezes que Blue  um homem fora de srie.
	Tenho medo de que esteja me dizendo isso s para que eu no fique deprimida.
	No, no  por causa disso. Estou lhe dizendo a verdade. Pela ltima vez eu lhe peo: acredite em mim.
	Vou tentar, filha, vou tentar.  Patrcia Wallace deu um longo suspiro.  No se esquea de dizer ao Blue para ir procurar o seu tio na segunda-feira.  muito importante.
 Farei isso, pode ficar tranquila.
Ao desligar o telefone, Allison estava se sentindo bastante infeliz. Deveria ter dito  tia que amava Blue Summer.
"Mas se eu tivesse lhe contado sobre os meus sentimentos, tenho certeza de que ela acharia que tudo o que lhe disse  mentira."

	CAPITULO VII
	
Por volta das seis horas da tarde, Blue tinha acabado de fazer uma inspeo pela fazenda. Ao entrar em casa, ele suspirou aliviado. Tudo estava na mais completa ordem. Era muito bom no ter de se preocupar com dinheiro. Era muito bom ter conseguido tudo com o que sempre havia sonhado. Inclusive a mulher que tanto o impressionara desde que a vira pela primeira vez. Seu nico problema naquele momento consistia em saber o que fazer com ela. Se fosse outra qualquer, certamente j teriam se tornado muito, muito ntimos. Mas no se casara com uma mulher como as outras. Tal fato, apesar de deix-lo um tanto inseguro e com medo, tambm o deixava muito feliz.
Blue sabia que Allison queria amar, amar de verdade. E isso o deixara bastante ressabiado. Como amar, amar de verdade, se no acreditava no amor?
Blue se encaminhou para a sala, pensativo. Acostumado que estava com as agruras da vida, ao ter de enfrentar tudo de peito aberto, medo e insegurana jamais haviam feito parte conscientemente de sua emoo.
"Allison quer amor." Ele sentou-se no sof. "E eu nunca aprendi a amar. Portanto, estou achando que esse nosso relacionamento no tem futuro. Um dia, Allison tambm chegar  concluso de que esse relacionamento no tem futuro e me deixar."
Blue estremeceu. No, no seria nada fcil deix-la ir.
"Mas, com toda certeza, Allison vai perceber que precisa de algum mais gentil, refinado e culto para se relacionar. O que eu sou? Sou apenas um caubi. Apenas um caubi que teve a sorte de encontrar petrleo. Se no tivesse o que tenho, Allison jamais se aproximaria de mim."
Blue recostou-se no sof e fechou os olhos. De imediato, as imagens de Allison comprando-lhe os filmes e o videocassete assomaram-lhe  mente.
"Acho que, no ntimo, ainda continuo me comportando como se no tivesse dinheiro. Como  que no pude pensar em comprar um videocassete e filmes para mim antes? Foi preciso que Allison sentisse as minhas necessidades... Ento, em pouco tempo, ela resolveu tudo. Bem, pelo menos uma de minhas necessidades ela resolveu."
Blue continuou sentado ali por mais alguns minutos. Depois, se levantou e foi tomar um banho.
Allison, aps o telefonema da tia, tinha voltado para o quarto e continuado, junto com Blue, a abrir os presentes que haviam recebido. Mais tarde, quando ele resolveu ir inspecionar a fazenda, ela tomou um banho e, logo depois, se deitou para descansar um pouco, mas acabou adormecendo.
Ao acordar, se assustou, pois havia dormido quase duas horas. Ela, ento, se levantou, colocou um vestido bem vaporoso e foi para a sala de estar. Sentou-se no sof e ficou pensando em tudo o que havia lhe acontecido nos ltimos dias.
"At aqui, tudo est indo muito bem. Mas eu acho que o Blue ficou meio estranho, depois que chegamos de viagem. Espero que seja s impresso minha." Ela mordeu o lbio inferior. "E onde ele estar agora?"
Como se tivesse surgido do nada, para lhe responder  ltima pergunta que se fizera, Blue entrou na sala.
	Voc est muito bonita.
	Muito obrigada.
	O azul lhe cai muito bem.
	Muito obrigada  ela repetiu, agora j meio sem graa.
	Esse tom de azul  exatamente o dos seus olhos.
	Pensei que voc nunca tivesse reparado na cor dos meus olhos, Blue.
	E quem poderia deixar de not-los? Seus olhos so lindos.
	Eu...  ela interrompeu a frase, por no saber o que dizer.
	No s os seus olhos, Allison, voc  muito bonita.
	S agora notou isso?  ela brincou, fingindo no ter qualquer tipo de modstia.
	No, eu notei isso na primeira vez que a vi.
Allison queria continuar com aquele tipo de conversa, mais ntima, com um qu de seduo. Porm, sentiu muito medo. E resolveu mudar radicalmente de assunto:
	E a fazenda?
	Felizmente, est tudo em ordem com a fazenda. Tenho bons funcionrios.
	Ouvi dizer que voc os remunera regiamente.
	Pago o que eles merecem. No gosto de explorar ningum.
 Isso, sim,  que eu chamo de patro, embora saiba que voc j foi muito explorado na vida.
	Por isso mesmo nego-me a explorar qualquer pessoa que seja.  Ele deu um longo suspiro.  O jantar j vai ser servido. Vamos?
Os dois se encaminharam para a sala de jantar, onde a mesa, mais uma vez, tinha sido arrumada com grande esmero.
	As rosas agora so brancas  ela comentou.
	No so as mesmas que estavam aqui na hora do almoo?  Blue perguntou, enquanto se sentava  cabeceira.
	No, as outras eram amarelas.  Ela tambm se sentou, ao lado direito de Blue.
	Voc  uma excelente observadora.
	No, apenas gosto muito de flores.
	 mesmo? No venha agora me dizer que est pretendendo cuidar dos jardins desta casa.
	Estou, sim. E tambm estou pretendendo fazer uma horta.
	Voc sabe que no precisa se dar a esse tipo de trabalho, Allison.
	Isso para mim no  trabalho, Blue.  prazer.
	Bem, voc  quem sabe.
O jantar foi servido. Blue, mais do que nunca, sentia um desejo imenso por Allison. E o desejo o deixava sem saber como agir. A espontaneidade que tinha conseguido quando se encontravam em Dlias, havia desaparecido.
Allison, por sua vez, tambm estava se sentindo profundamente insegura. Mesmo assim, resolveu que aquele era o momento de entregar a Blue um presente muito especial: um par de abotoaduras de ouro que havia pertencido ao pai.
De repente, a insegurana dela aumentou muito e Allison achou que, talvez, fosse melhor entregar-lhe o presente em uma outra ocasio.
	Por que voc est to calada?
	Voc tambm est calado, Blue.
	Estou?
	Est, sim.
	Tenho a sensao de que voc tem algo para me dizer.
	Na verdade, tenho algo para lhe dar  ela se ouviu falando, embora no pretendesse.  E um presente, um pre sente simples, mas de um imenso valor sentimental para mim.
	Um presente...  Blue comeou a se sentir bastante incomodado.
	Exatamente.  Allison se levantou e pegou a caixinha que havia deixado dentro da gaveta de uma cristaleira. Em seguida, voltou para a mesa, tornou a se sentar e entregou a caixinha a Blue.  Como eu lhe disse,  um presente de um imenso valor sentimental para mim.
Com a caixinha nas mos, Blue no sabia o que fazer.
	Abra, por favor.
Ele abriu a caixinha e se deparou com as abotoaduras de ouro.
	Gostou?  ela quis saber.
	So bonitas.
"Ser que ele no vai me agradecer?"
E Blue no agradeceu. Simplesmente colocou a caixinha sobre a mesa e continuou a jantar, como se o presente no tivesse representado nada para ele.
"Por que ser que Allison resolveu me dar um presente como esse? Essas abotoaduras pertenceram ao pai dela e..."
	Com licena, senhor  o mordomo entrou na sala de jantar.
	Pois no, Edward?  Blue se dirigiu ao mordomo, srio, tenso.
	Os senhores tm visitas.
	Visitas? Mas eu no estou esperando ningum.
	O sr. e a sra. Wallace esto na sala de estar. Eu lhe disse que os senhores se encontravam  mesa, jantando.
	Muito obrigado, Edward.
	Sempre s ordens, senhor.
Assim que o mordomo saiu da sala, Blue olhou para Allison e perguntou:
	Voc sabia que eles viriam?
	No, eu no sabia.
	Eles poderiam, pelo menos, ter avisado.
	Hoje conversei com a minha tia pelo telefone.
	Ento voc os convidou para...
	Muito pelo contrrio  ela o interrompeu.  Minha tia me props que jantssemos juntos, mas eu lhe disse que queria ficar tranquila na nossa primeira noite aqui nesta casa.
	E, mesmo assim, ela e o seu tio resolveram vir para c? Em plena sexta-feira  noite?  Blue perguntou de maneira seca.
	 o que parece.
	No gostei disso, Allison. Me casei com voc, no com eles.
	Tenha calma, Blue.
	Eu estou calmo. Mas continuo achando que deveriam ter nos avisado que viriam para c.
Os dois permaneceram em silncio at o final da refeio. Quando deixaram a sala, Allison estava se sentindo muito mal.
Ao ver Allison entrando na sala de estar, Patrcia Wallace se levantou e correu para abra-la.
	Como voc est bem, minha querida.
	Muito obrigada tia, a senhora tambm est muito bem.
	Como vai, Blue?  Patrcia Wallace perguntou.
Blue respondeu, muito srio:
	Eu estou timo.
"Meu Deus, espero que Blue no seja grosseiro com os meus tios. Logo agora que eu garanti a minha tia que ele era um amor de pessoa..."
	Como vai, querida?  Foi a vez de Charles Wallace se levantar e abraar Allison.
	Estou muito bem, titio. E o senhor?
	Mais ou menos.
Blue tambm cumprimentou Charles Wallace de maneira fria, nada cordial.
	Sente-se tio. Por favor, tia Patrcia, sente-se.
	Nos desculpem por termos vindo sem avis-los  Patrcia Wallace disse, enquanto voltava a se sentar.  Mas no consegui segurar o seu tio em casa, depois que ficou sabendo que tinham chegado.
Charles Wallace se acomodou ao lado da esposa.
	E vocs? Vo continuar de p?  Patrcia Wallace demonstrava que estava pouco  vontade.
	Mas  claro que no.
Allison e Blue se acomodaram num sof de dois lugares.
	Quer dizer, ento, que vocs resolveram ficar em Dlias...
	Pois , tia.
	Pensei que vocs fossem para o exterior.
	A gente vai fazer isso assim que for possvel, quando tivermos mais tempo.
Allison e a tia continuaram conversando, enquanto Blue e Charles se mantinham em silncio. Mas o silncio entre eles foi quebrado quando Charles Wallace pediu para conversar em particular com Blue.
	Voc poderia ter sido mais cordial com os meus tios  Allison reclamou, quando os Wallace j tinham ido embora.
	Estranhei essa visita.
	Blue, tenha um pouco de pacincia.
	No gosto do seu tio, Allison. Vai ser muito difcil ter de receb-lo aqui nesta casa. Aquele homem parece que tem um cifro na testa.
	Blue, por favor, foram eles que me criaram.
	Acho que no foi s por interesse financeiro que eles vieram at aqui. Talvez estivessem querendo se certificar de que eu a estou tratando bem.
	Blue, imagine... Nem pense numa coisa como essa. Eles vieram aqui porque gostam de mim.
	Ser? Ser que gostam mesmo? Se gostassem o tanto que imagina, no a teriam obrigado a se casar comigo.
	Eles no me obrigaram a me casar com voc.
	No?  ele duvidou.
	No  Allison afirmou, de maneira categrica.  Me casei com voc porque eu quis.
	E quer mesmo que eu acredite nisso? Se voc fosse como as outras mulheres, no hesitaria em acreditar.
	No entendi...
	Tudo me diz, Allison, que, ao contrrio das outras mulheres, voc no est atrs do meu dinheiro.
	E no estou mesmo.
	Ento, por que se casou comigo? Sentiu pena de mim? Quis dar a um caubi como eu a oportunidade de conhecer uma mulher refinada?
	No diga um absurdo como esse.
	Tudo bem  ele a segurou pelos ombros , eu no digo. Mas, antes, quero saber por que se casou comigo.
	Casei com voc porque eu quis. E, por favor, no faa com que eu me arrependa.  Allison o fitou intensamente e correu para o quarto.
Deitada, Allison, continha-se para no chorar. "Por qe Blue havia se transformado em outro homem, depois de terem chegado naquela casa?"
"Meus tios no poderiam ter vindo aqui hoje. Tia Patrcia deveria ter acreditado em mim. Ela deveria ter acreditado que Blue tem me tratado muito bem."
Blue entrou no quarto. Ele sentou-se na cama e perguntou:
	Voc est dormindo?
	No, eu estou acordada.
	Por que esse tom de voz? O que foi que eu fiz?
	No gostei da maneira como tratou os meus tios. E tambm no gostei da maneira como me tratou h pouco.
	Tambm no gostei da maneira que fui tratado pelos seus tios. O que eles vieram fazer aqui, afinal?
	Me ver,  claro. Eu j lhe disse isso.
	Eu acho que no. Na realidade, eles vieram aqui para ver se eu a estou tratando bem, se no est lhe faltando nada. Ou melhor, a sua tia veio aqui por esse motivo. O seu tio... O seu tio s pensa em dinheiro.  Blue livrou-se da cala, da camisa e, s de sunga, deitou-se ao lado de Allison.  O seu carro chegou.
	Eu sei. Voc j me disse, quando estvamos abrindo os presentes.
	 verdade, eu j lhe disse.
	E voc no me parece muito entusiasmada com o meu presente.
	Blue, o carro  lindo. E eu j lhe agradeci o presente. Mas no ligo muito para carros. Na verdade, acho que a gente deveria andar mais a p. Andar a p  bom para o corpo e para o planeta.
	Voc  uma mulher muito estranha.
	Estranha? S porque no ligo para carros e para o consumo, de uma maneira geral?
 Por que voc me deu aquelas abotoaduras?
	Porque voc  meu marido. E, como eu lhe disse, aquelas abotoaduras pertenceram ao meu pai.
	Mas o nosso casamento pode no dar certo.
Ao ouvir aquilo, Allison estremeceu.
	Por qu? Por que voc est me dizendo isso?
	Ns somos muito diferentes.
	Ser que somos mesmo, Blue?
	Voc  uma moa educada, foi criada como uma rainha. E eu no passo de um caubi.
	Blue  ela sentou-se na cama e o encarou , eu me casei e pretendendo continuar casada com voc pelo resto da minha vida.
	A rainha e o caubi...  Blue deu uma risadinha.  Isso jamais vai dar certo.
	Mas em Dlias voc me disse que levava o casamento com seriedade.
	E  verdade. Mas acho que cometemos um grande erro. Jamais serei um homem adequado para voc.
Allison deu um longo suspiro e perguntou:
	Blue, me diga: por que quis se casar comigo? Por capricho?
	No, no foi por capricho.
	Ento foi por amor?  ela ironizou.
	Claro que no. Voc sabe exatamente o que penso sobre o amor.
	O que, ento, o levou a se casar comigo?
	Voc foi a nica mulher que me tratou bem quando eu era pobre.
	A, voc resolveu me recompensar.
	No fundo, acho que sim.  Ele tambm sentou-se na cama e acariciou-lhe o rosto.  Voc  muito linda.
S naquele instante, Allison viu que, por causa da posio em que se encontrava, o decote da camisola havia descido, e os seus seios estavam quase  mostra. De maneira instintiva, como para se proteger daquele olhar inebriante, ela quis tentar arrumar o decote, mas foi impedida por Blue.
	No faa isso  ele pediu, baixinho , no faa isso. Seus seios tambm so lindos.
	Blue, eu...  Dentro do peito, o corao de Allison estava disparado.
	E eu vou toc-los, Allison, no estou conseguindo resistir.
Blue, devagar, comeou a acariciar-lhe os seios. Depois, se aproximou mais de Allison e a beijou na boca, um beijo suave, muito sedutor.
	Eu estou com medo, Blue.
	No tenha medo, Allison, no tenha medo, por favor. Serei cuidadoso com voc, eu prometo.
E Blue cumpriu a promessa. Allison, quando se deu conta do que acontecia, estava possuda pelo desejo, nua nos braos do homem que amava. Blue parecia conhecer-lhe cada centmetro do corpo, e, quando a penetrou, Allison gritou de prazer.
	Machuquei voc?  ele perguntou, muito preocupado.
	No, Blue, no...  Allison disse baixinho, num gemido.
Blue, ento, continuou a am-la e os dois atingiram o clmax juntos.
	Como sempre acontecia, Blue acordou muito cedo. E, ao se deparar com Allison dormindo profundamente, ele sorriu encantado. Ela havia demonstrado ser uma boa amante.
Blue levantou-se, tomou um banho e foi para a cozinha. Naquela hora todos os empregados estavam ainda dormindo.
Ele, ento, preparou um caf e sentou-se  mesa.
"Valeu  pena ter me casado com Allison. Toda a insegurana que eu estava sentindo parece que desapareceu. Tinha mesmo muito medo de machuc-la. Pela primeira vez, fiz amor com uma virgem. E na segunda vez que nos amamos..." Ele deu um longo suspiro. "Foi fantstico! Ainda bem que aconteceu. No conseguiria dormir mais uma noite ao lado dela sem possu-la. Agora tenho quase certeza de que nosso casamento pode dar certo. Quando um casal se entende na cama, j  meio caminho andado."
Blue levantou-se, abriu a geladeira e serviu-se de um copo de leite gelado. Aps ter bebido o leite, tomou mais uma xcara de caf e foi ver se tudo estava em ordem na fazenda.
Allison s acordou em torno das nove horas da manh. E se frustrou quando percebeu que se encontrava sozinha na cama.
Ao lembrar-se do que acontecera na noite anterior, ela sentiu um arrepio percorrer-lhe o corpo.
"Mas s houve sexo entre ns dois. Apesar do cuidado, apesar da delicadeza com que Blue me tratou, nenhuma palavra de amor foi pronunciada nesta cama. E isso  muito triste. Acho que, de agora em diante,  s isso que vai acontecer entre ns dois: sexo. Sexo e mais nada. Ser que vou conseguir suportar um casamento sem amor?"
Allison se levantou e foi tomar um banho. Depois, usando um vestido sem mangas, deixou o quarto, e, quando se encontrava no ltimo degrau da escada, a governanta a cumprimentou:
	Bom dia, sra. Summer.
- Bom dia, sra. Burn.
	Posso mandar lhe servir o desjejum?
	A senhora viu o meu marido?
	Acho que o sr. Summer saiu muito cedo. Quando cheguei na cozinha, algum j tinha estado l.
	Sei... Pea, ento, que me sirvam o caf da manh.
Aps a refeio matinal, Allison resolveu ler um pouco, na expectativa que Blue logo aparecesse, o que no aconteceu.
"No vou ficar aqui parada." Ela colocou o livro sobre o sof. Ao sair de casa, logo viu uma movimentao perto do estbulo. E se dirigiu para l.
	O que est acontecendo aqui?  J dentro do estbulo, Allison perguntou a Blue.
	Thunder, o meu touro mais caro est doente.
	 grave?
	O veterinrio acabou de ir embora.
	E o que o veterinrio disse?
	Que o Thunder est com uma grave infeco. Mas ele j foi medicado. Agora ter de ficar em observao. E voc? Est querendo ficar doente?
	No entendi, Blue.
	Com esse sol quente, no pode sair de casa assim  ele disse de maneira seca.  Voc tem de usar pelo menos um chapu.
Allison, que no gostou nada de ser tratada com tanta frieza, deu-lhe as costas.
	Aonde voc vai?  Blue quis saber.
	Para casa  Allison respondeu sem se voltar.  Me proteger do sol.
Durante todo o dia, Allison no viu mais Blue.  noite, quando j se encontrava deitada para dormir, ele entrou no quarto e, sem acender a luz, se encaminhou para o banheiro. Dez minutos mais tarde, Blue deitava-se ao lado dela.
"Na certa, ele pensa que estou dormindo h muito tempo. E hoje eu no quero que Blue me toque. Portanto, vou ficar bem quietinha, sem me mexer. Pela manh ele me tratou como se eu fosse uma estranha, como se nada tivesse acontecido entre ns dois. E, se Blue continuar assim, acho que no vou suportar. Tenho certeza de que algo mudou dentro dele, depois que chegamos nesta casa. Em Dlias, Blue parecia um outro homem. Ele no sabia o que fazer por mim. E agora..."
Allison, de repente, sentiu que Blue a tocava bem de leve.
"No! Apesar de desej-lo com loucura, hoje no quero fazer amor!"
 Sei que voc no est dormindo, Allison.
"Tenho de resistir. Tenho de..."
Mas Allison no resistiu. O corpo nu de Blue contra o dela era mais do que uma tortura. E, de novo, os dois fizeram amor.
CAPITULO VIII

No domingo pela manh, Allison foi  igreja. Na sada, encontrou-se com Elizabeth Morgan, uma grande amiga.
	E como vai a mulher mais sortuda desta cidade?  Elizabeth perguntou aps abra-la?
	Estou tima, e voc?
	Eu estou tima tambm, mas estaria ainda melhor se tivesse me casado com aquele homem fantstico. Adoro aquele jeito do Blue.
	Bom dia, querida  Patrcia Wallace se aproximou das duas.
	Bom dia, tia Patrcia. Como tem passado?
	Acho que estou bem.
	E onde est o sr. Wallace?  Elizabeth quis saber.
	Em casa  Patrcia Wallace respondeu, meio contra riada.  Ele no faz muita questo de frequentar a igreja. E o seu marido, Allison? Onde est o Blue?
	Ele precisou cuidar de algumas coisas l na fazenda.
	Que tal ns trs irmos at uma lanchonete?  Elizabeth sugeriu.  A, poderamos conversar mais sossegadas.
	Acho uma boa ideia  Allison concordou.  Vamos, tia?
	No sei se devo. O seu tio est sozinho l em casa.
	O que  isso, sra. Wallace? A gente s vai tomar um cafezinho ou um refrigerante.
	Tudo bem. Eu vou com vocs.
Na lanchonete, Elizabeth continuou dizendo  Allison que ela havia tirado a sorte grande. Allison, por sua vez, como conhecia a amiga h muitos anos, e sabia o quanto era brincalhona, no se sentiu nem um pouco ofendida.
	E o tio Charles, como est ele?  Allison quis saber.
	Depois que o seu tio conversou com Blue, ele ficou mais tranquilo.
	Sei...
	E eu? Posso saber que conversa to importante foi essa?  Elizabeth perguntou, curiosa.
Patrcia Wallace resolveu a questo com uma simples frase:
	Conversa de homem, minha filha, conversa de homem...
	Os homens so sempre muito misteriosos, cheios de segredos.  Elizabeth riu.  Por isso  que eu gosto deles.
A conversa continuou entre as trs. Perspicaz, Allison notou que a tia no estava nada bem. Porm, no podia lhe fazer qualquer pergunta mais pessoal, no na presena da amiga.
	Bem, agora eu preciso ir. Tenho um compromisso muito importante na hora do almoo.  Elizabeth se levantou.
 Tenham um excelente domingo.
	Pensei que fssemos conversar mais um pouco  Allison disse  amiga.
	Assim que for possvel, ligo para voc e a gente marca um encontro bem longo.
	Tudo bem.
	Quanto ser que custa o caf?  Elizabeth levou a mo  bolsa.
	Nem pense numa coisa dessa  Allison protestou , eu pago o caf que voc tomou.
	Muito obrigada. Na prxima vez, quem paga sou eu.
	Combinado.  Allison sorriu.
	Estava me esquecendo: Allison, quando voltam as suas atividades na escola de catecismo e no hospital?
	Amanh eu tenho aula l na igreja. A tarde, com toda certeza, estarei no hospital.
	Se for possvel, darei uma passada l no hospital para ajud-la.
	Combinado.
	Mas no  certeza.
	Certo.
Elizabeth foi embora. Allison, preocupada, perguntou  tia:
	O que est acontecendo?
	Nada, minha filha, nada...
	Por favor, no tente me enganar. Sei que algo est acontecendo. Por favor, me conte. Gostaria de poder ajud-la.  Allison acariciou a mo da tia.
Os olhos de Patrcia Wallace se encheram de lgrimas.
	Vamos, por favor, me conte o que est acontecendo.
 Tudo bem, minha querida, eu vou contar.  Aps alguns segundos de silncio, Patrcia Wallace continuou:  Ontem pela manh, estive no escritrio do seu tio.
	Mas ontem foi sbado.
	, ontem foi sbado... Mas ns tnhamos um almoo muito importante. A, o seu tio resolveu ir at l para ver alguns documentos e me levou junto com ele.
	Sei...
	Bem, o seu tio precisou ir at o escritrio do advogado do banco, que fica ao lado do dele, e me deixou sozinha. E voc nem imagina o que eu vi.
	O qu? O que foi que a senhora viu?
	Juro, Allison, juro que no fui mexer nos papis do seu tio.  As lgrimas agora corriam pelo rosto de Patrcia Wallace.  Mas como estava muito calor, ele abriu as janelas e o vento derrubou alguns papis no cho. Eu s fui apanh-los. E quando vi.... Meu Deus! Era um documento oficial. Uma mulher, sobre a qual jamais ouvi falar, entrou com um processo de reconhecimento de paternidade. Seu tio me traiu, Allison.
	Oh, titia, sinto muito  Allison voltou a acariciar a mo da tia , mas eu sinto muito mesmo. No deve estar sendo nada fcil para a senhora enfrentar uma situao como essa.
	No, no est sendo nada fcil. Mas foi melhor assim.
	E o que a senhora est pretendendo?
	No sei minha filha, no sei.  Patrcia Wallace retirou um leno da bolsa e enxugou as lgrimas.  Estou me sentindo muito decepcionada. No esperava uma coisa dessa do seu tio.
	Tia, por favor, no fique assim.
	Eu quero continuar com a minha vida. Quero continuar me dedicando s obras de caridade e....  Patrcia Wallace no terminou a frase. Balanando a cabea em negativa, assoou o nariz e depois continuou:  Estive pensando em procurar essa mulher.
	Mas a senhora sabe o endereo dela?
	Sei, sim. O endereo dela constava no tal documento. Um escndalo, como voc bem sabe, seria fatal para o banco.
	Mas tia, essa mulher pode estar blefando.
	Nenhuma mulher  louca para entrar com um processo de paternidade contra um homem, se no tiver certeza de que o filho  dele.  Patrcia voltou a assoar o nariz.  Se eu for falar com ela, vou querer que tudo seja resolvido sem escndalo. Mas essa criana ter de ser amparada.
Uma criana no tem culpa dos erros dos adultos.
	A senhora  uma mulher e tanto, tia. A senhora  uma grande mulher.
	Obrigada, minha filha. Mas acho que vou ter de comear a encarar a vida de frente. No posso fechar os olhos para uma coisa to grave.
	A senhora est pensando em se... divorciar?
	Estou pensando nisso, sim.
	Estarei sempre do seu lado. A senhora sabe disso, no sabe?
	Eu sei, sim, minha querida. Voc  uma pessoa rara. Um presente de Deus para mim.
	Que tal ir almoar conosco l na fazenda?  Allison sugeriu.
	Almoar com vocs?  a tia se mostrou indecisa.
	Claro.
	Mas o seu tio est me esperando.  De repente, Patrcia Wallace mudou de ideia e disse:  Ele que espere!
Assim que chegaram na fazenda, Allison se encontrou com Douglas, que a cumprimentou de maneira respeitosa:
	Bom dia, sra. Wallace.
	Bom dia, Douglas. Como est o seu irmo?
	Bem, graas a Deus, muito bem.
	Que timo.  Allison sorriu.  Voc pode me fazer um favor, Douglas?
	Estou s suas ordens, senhora.
	Voc pode selar dois cavalos bem mansos? Minha tia e eu vamos cavalgar um pouco.
	Claro, senhora.  O empregado se afastou.
	Allison, faz muito tempo que eu no cavalgo.
	E da, minha querida?  Allison passou o brao em torno do ombro da tia e a encaminhou para casa.  Tambm faz muito tempo que eu no cavalgo. Mas ser divertido, a senhora vai ver.
Ao entrar em casa, Allison se encontrou com Blue.
	Bom dia, sra. Wallace  ele cumprimentou.
	Como tem passado, Blue?
	Muito bem, obrigado.
	E o Thunder, Blue?  Allison quis saber.
	Parece que o Thunder vai ficar bom.
	Isso  timo.  Allison sorriu.  Minha tia e eu vamos cavalgar um pouco.
	Assim?  ele perguntou, espantado.  No se cavalga de vestido, Allison.
	Ns vamos subir e trocar de roupa. Minha tia e eu usamos o mesmo manequim.
	Certo. E eu vou dar mais uma olhada no Thunder.
Allison e a tia cavalgaram pela fazenda, por cerca de uma hora. Depois voltaram para casa e foram tirar as roupas de montaria.
	Quer tomar um banho, tia?
	Quero, sim, minha querida.
	Ento, pode ocupar o meu banheiro. Eu tomo banho no do Blue.
	Ter dois banheiros no quarto do casal  muito bom, no ?
	Eu acho.  sempre muito bom para o casal manter uma certa privacidade.
Meia hora mais tarde, Allison e a tia chegavam na sala de estar.
	Posso mandar servir o almoo, senhora?  Edward perguntou, solcito.
	Meu marido j chegou?
	Ele telefonou dizendo que no estar aqui para o almoo.
	Mas hoje  domingo...  Allison ficou muito decepcionada, mas logo decidiu:  Pode mandar servir o almoo, sim, Edward.
No final da tarde, Allison foi levar a tia para casa. Ao voltar para a fazenda, Blue ainda no havia chegado.
"Ser? Ser que ele tambm tem uma amante?", ela se perguntou apreensiva. "No, no pode ser. Na certa ele foi resolver algum problema urgente."
Allison, por causa do forte calor, resolveu ir nadar um pouco. E ficou sozinha na piscina at o sol desaparecer. Depois, tomou um outro banho e pediu que o jantar fosse servido.
"Sozinha. Sozinha nessa casa imensa... Talvez seja isso que a vida me reserva. Onde ser que o Blue est?"
Aps o jantar, Allison resolveu ver um pouco de televiso, mas no conseguiu prestar a menor ateno nas imagens que desfilavam a sua frente. Ento, pegou um livro e foi para a cama. Mas tambm no conseguiu prestar a menor ateno  leitura.
De repente, a porta se abriu, e Blue entrou.
	Boa noite, Allison  ele a cumprimentou.  Desculpe-me, mas tive de ir para Dlias.
	Dlias? Mas o que voc foi fazer em Dlias, em pleno domingo?
	Negcios, Allison, negcios.  Ele tirou a camisa e a cala.
	E posso saber que tipo de negcio levou voc  Dlias?  ela perguntou, mas logo se arrependeu.
	Est com cimes, Allison?
	No  cimes  ela tentou negar , mas no acho justo passar o domingo inteiro sozinha.
	Mas a sua tia estava aqui com voc.
	Blue  ela deu um profundo suspiro , no sou mulher de ficar vigiando ningum. Mas, por favor, no me trate como se eu no existisse.
	Voc est sendo injusta comigo. Logo depois que voc saiu para cavalgar, recebi um telefonema de um banqueiro suo. Ele estava em Dlias e partiria nesta noite para a Europa.
	Um banqueiro suo...
	Exatamente: um banqueiro suo. Agora, se me der licena, vou tomar banho.
Na segunda-feira ao acordar, Allison no encontrou mais Blue na cama. Ela, ento, se levantou, tomou um banho e, logo em seguida, desceu para o caf da manh, que foi muito breve. Afinal, no poderia se atrasar para a aula de catecismo, que sempre ministrava s segundas-feiras.
Ao chegar na sala de aula, que ficava ao lado da igreja, Allison foi recebida muito bem pelas crianas, que quiseram saber se a viagem dela tinha sido boa. Allison, ento, contou para eles que viajara para Dlias, e que agora morava na casa de Blue Summer, o homem com quem se casara.
	Ele  legal?  um dos alunos quis saber.
	Muito, meu marido  muito legal.
	E quantos anos ele tem?  Quem fez a pergunta foi Jully, uma garotinha de nove anos.
	Trinta e cinco.
	Trinta e cinco anos?  Jully ficou espantadssima.  Ele ento  bem velho. Meu pai tm trinta e cinco anos tambm.
Allison riu muito de Jully, respondeu a outras perguntas e, em seguida, iniciou a aula. E aquela, como todas as outras segundas-feiras, foi maravilhosa para Allison. Ao sair da escola, sentia-se em paz com a vida, em paz com o mundo.
Mas, durante o trajeto de volta at a fazenda, comeou a ficar apreensiva. Ser que Blue fora falar com o tio?
Allison obteve a resposta a essa pergunta, ao chegar em casa.
	Posso saber aonde voc esteve?  Blue perguntou, assim que ela entrou na sala.
	Mas  claro que pode: estive dando aula de catecismo. Alis, como fao todas as segundas-feiras pela manh.
	Ah... Eu havia me esquecido.
	Foi o que eu imaginei.  Ela sentou-se ao lado de Blue, no sof, e resolveu provoc-lo:  E voc? O que fez hoje pela manh? Foi para Dlias novamente?
	Claro que no. Fui cuidar dos meus negcios. Depois fui falar com o seu tio.
	E como foi a conversa?
	Exatamente como eu esperava. Seu tio queria que eu investisse mais dinheiro no banco. E resolvi investir, sim. Mas no a quantia que ele esperava.  Blue deu um suspiro de impacincia.  E fiz questo de deixar bem claro a ele que voc no tem culpa...
	Culpa?  Allison o interrompeu.  Sobre o que est falando?
	Estou falando do golpe que o seu ex-colega aplicou no banco. E fiz tambm questo de deixar bem claro que, agora, ele ter de entrar em contato com a polcia para contar sobre o desfalque. Caso contrrio, retiro todo o meu dinheiro de l.
	E garanto que ele ficou possesso com voc.
	Seu tio tentou me convencer que no poderia colocar a polcia nesse caso, mas eu me mantive firme: ou ele faz o que tem de ser feito, ou no ver nem mais um tosto que seja meu. E se o seu tio ficou possesso comigo, Allison, o problema  dele. O bom de ser rico  no ter de dar satisfaes a homens como Charles Wallace.
	Mas, pelo que eu tinha entendido, voc no estava mais a fim de continuar trabalhando com o banco do meu tio.
	Mudei de ideia. Na verdade,  cmodo para mim continuar trabalhando com ele. E com o dinheiro que eu investi l, seu tio pode muito bem salvar o banco.
	Voc no est correndo nenhum risco? Ser que no pode acabar perdendo o dinheiro que deixou com o meu tio? 
	No acredito nisso. A menos que o seu tio resolva me roubar. Alm do mais, levei para a reunio o homem que cuida das minhas finanas. E ningum consegue passar John White para trs. Acho que, no fundo, o seu tio estava mesmo querendo cuidar do meu dinheiro. Mas eu no confio nele, Allison.  Blue se leyantou.  Agora vamos almoar. Estou faminto.
Assim que terminou o almoo, Blue saiu. Logo depois, Allison saa tambm. Da fazenda, ela foi direto para o hospital da cidade, onde fazia leitura para os enfermos adultos e brincava com as crianas que estavam internadas. Durante o trajeto at ao hospital, imagens da noite anterior, quando mais uma vez fizera amor com Blue, comearam a desfilar-lhe pela mente. Como sempre, quando se amavam, Blue a tratava com muito carinho e havia lhe dito que queria um filho logo.
"E eu no tive coragem de lhe dizer que, assim que decidimos nos casar, procurei um mdico e comecei a tomar plulas. Mas deveria ter lhe contado. A menos que plula anticoncepcional para mim no funcione, Blue no ter o filho que tanto quer to breve assim."
No hospital, Allison tambm foi recebida com muita alegria pelos funcionrios e pacientes. E a tarde passou tranquila, feliz. Antes de voltar para a fazenda, ligou para a tia e, para no se encontrar com o tio, disse a ela que tinha um compromisso urgente, por isso no poderia ir dar-lhe um abrao. E Allison ficou sabendo que a tia ainda estava muito indecisa sobre o que fazer quanto a possvel traio do marido.
"Meu tio Charles sempre foi muito frio e distante. Sei que lhe devo muito. Afinal, ele foi um pai para mim", Allison pensava quando voltava  fazenda. "Mesmo assim, estou comeando a acreditar que a minha tia sempre sofreu calada por causa dele. Preciso rezar muito para que tudo d certo, e ela no entre mais em uma daquelas depresses profundas que sempre a acontecem, quando tem de resolver algum problema srio."
Mais uma vez Allison jantou sozinha.
"Se no me controlar, quem vai entrar numa profunda depresso sou eu. Jamais imaginei que Blue fosse um homem to ocupado." Ela deu um longo e profundo suspiro. "Talvez exista mesmo uma outra mulher na vida dele. Meu Deus, seria insuportvel para mim se a minha desconfiana se tornasse uma dura e cruel realidade."
Allison quase no comeu naquela noite. E, aps ter terminado o jantar, foi direto para a cama. Mil perguntas sem respostas comearam a girar por sua mente. E, a cada segundo que passava, ela se sentia mais e mais confusa.
"Eu deveria ter contado ao Blue que estou tomando anticoncepcional. Pelo jeito, ele quer mesmo um filho logo. Mas na hora em que Blue me falou, fiquei sem ao e resolvi lhe contar numa outra oportunidade. S que eu poderia ter lhe contado l em Dlias." Allison balanou a cabea em negativa. "No, se eu tivesse contado l em Dlias, iria parecer que estava tentando forar uma situao. Afinal, na nossa lua-de-mel, ns no tivemos um relacionamento sexual de fato."
Aflita, Allison se levantou e se aproximou da janela. L fora, uma lua imensa enfeitava o cu estrelado.
"E quanto a essa histria que est acontecendo entre meus tios? Eu deveria ter contado tudo ao Blue, antes que ele fosse quela reunio. Talvez, se tivesse sabendo do processo, o rumo do encontro fosse outro, e ele nem tivesse investido mais dinheiro no banco." Allison voltou a balanar a cabea em negativa. "Mas eu no podia contar a ele sobre o processo. Se o tivesse feito, estaria traindo a confiana que minha tia depositou em mim. Ou no? Na verdade, eu acho que no. Afinal, minha tia no pediu segredo. E estaria comentando o fato com o meu marido. Entre marido e mulher no pode haver segredos."
Allison voltou para a cama e continuou pensando, e pensando. Mas acabou dormindo. Porm, quando Blue entrou no quarto, ela acordou.
Blue despiu-se e foi para o banheiro. Quando voltou, deitou-se e, logo depois, estava dormindo.
"Pela primeira vez, desde que chegamos nesta casa, Blue no fez a menor questo de me tocar", Allison pensou, frustrada, e comeou a chorar baixinho.

CAPITULO IX

Naquela madrugada insone, Allison pouco conseguiu dormir. Por volta das quatro horas da manh, ela resolveu se levantar um pouco e, muito triste, ir para a sala de estar, onde se sentou no sof.
"Blue parece um outro homem. O que eu posso ter feito para ele ter ficado to distante de repente? No mudei o meu comportamento, no disse nada que pudesse aborrec-lo. Bem, pelo menos, eu acho que no. E daria tudo na vida para conquist-lo. Como um pessoa pode no acreditar no amor?" Allison, inconformada, levou as mos  cabea. "Tambm, com a vida que ele levou, no deve ser mesmo fcil acreditar no amor. Blue sofreu muito, foi muito humilhado."
Um a um, os pensamentos continuaram desfilando pela mente de Allison. Em um dado momento, porm, ela percebeu que no iria adiantar nada ficar ali se torturando, querendo encontrar um motivo para a mudana de comportamento ocorrida com Blue. O melhor que tinha a fazer era voltar para a cama e tentar dormir. E foi exatamente o que ela fez. Ao contrrio do que acontecera anteriormente, dormiu de imediato, acordando s oito, bastante descansada.
Allison, se levantou, colocou um jeans e uma camiseta e foi tomar o caf da manh. Em seguida, dirigiu-se ao hospital, de onde saiu com a sensao de dever cumprido. Ento, foi almoar num restaurante que ficava prximo ao hospital.
 mesa, sozinha, as mesmas dvidas e temores que haviam lhe invadido a mente durante a madrugada comearam a atorment-la. Porm, de repente, um pensamento que Al-lison vinha evitando, tornou-se uma quase certeza e passou a domin-la, aterrorizando-a: "Blue deve ter se casado comigo apenas por vingana. Isso explicaria a mudana dele. Pelo que fiquei sabendo, o meu tio o humilhou muito. E uma pessoa humilhada se torna capaz de tudo, capaz at de realizar os atos mais impensados." Trmula, Allison inspirou profundamente e tentou contemporizar: "No, acho que o Blue no seria capaz de uma atitude to extrema. Se quisesse vingana, ele encontraria mil maneiras de atingir o meu tio. Mesmo assim, com tantas mulheres disponveis, ainda resta uma grande dvida: por que ele foi escolher justamente a mim para se casar?"
A pergunta, mais uma vez, ficou sem resposta. Allison terminou de almoar e voltou para o hospital, onde faria leitura para alguns dos pacientes internados na geriatria. No final da tarde, ela se despediu dos pacientes e, quando j estava no saguo principal, viu sua tia numa cadeira de rodas, conversando com a recepcionista. Ao lado de Patrcia Wallace, estava Martha, a governanta.
	Meu Deus, o que foi que aconteceu?  Allison se aproximou apavorada das duas.
	Allison... voc por aqui...  a tia disse, num fio de voz.
	Vim ler para os pacientes da geriatria.
	 verdade... voc est sempre aqui no hospital.  Patrcia Wallace parecia meio ausente.  Voc  uma moa muito especial.  a filha que eu no tive. S voc mesmo para vir sempre aqui e se dedicar tanto ao prximo...
	Tia, por favor, diga-me o que aconteceu.
	Quero ser atendida... pelo dr. Evans...  Patrcia Wallace disse  recepcionista.
	A senhora teve sorte. Hoje est tudo calmo aqui no hospital, e o dr. Evans poder atend-la imediatamente.
	Tia, a senhora ainda no me disse o que aconteceu.
	No aconteceu nada, Allison, no aconteceu nada... Foi apenas um pequeno acidente com o meu carro. Foi apenas isso, minha querida, no se preocupe.
	Se tivesse sido um pequeno acidente, a senhora no estaria toda rasgada. E tambm no estaria numa cadeira de rodas.
- No estou precisando da cadeira de rodas para me locomover, Allison. Foi um enfermeiro que insistiu em me colocar aqui. S o meu brao est doendo muito.
Martha se mantinha calada. Allison, porm, percebeu que a governanta estava possessa.
Alguns minutos mais tarde, o dr. Evans chegou e levou Patrcia Wallace para ser examinada. Ailison e Martha os acompanharam at a entrada do consultrio e depois sentam-se na sala de espera.
	Como aconteceu o acidente?  Allison quis logo saber.
 No houve acidente algum.
	No?  Allison perguntou, muito espantada.
	O acidente se chama Charles Wallace.
	Explique-me melhor essa histria, Martha, por favor Allison pediu, aflita.
A governanta, bastante indecisa, ficou alguns instantes em silncio, depois disse:
	Estou sabendo de tudo. Sua tia me contou sobre o processo que o seu tio est sofrendo.
	Martha, por favor, conte-me tudo o que aconteceu.  Allison estava ficando desesperada.
	Bem, hoje a sua tia resolveu esclarecer tudo com o seu tio. E ele teve uma reao completamente irracional.
	O qu?
	Quando a sua tia disse a ele que estava sabendo sobre o processo, o sr. Wallace comeou a quebrar tudo o que encontrava pela frente.
	Meu tio? Meu tio fez isso?
	Fez. E inacreditvel, mas fez, sim.
	E voc? Voc no fez nada para ajudar a minha tia?
	Fiquei com medo de entrar na sala. Afinal, sou uma simples empregada.
	Meu Deus...
	Seu tio gritava muito. Jamais imaginei que ele pudesse se descontrolar tanto.
	 inacreditvel que o meu tio tenha agredido fisicamente a minha tia. Para mim, isso  imperdovel!

	Quando entrei na sala, sua tia j estava no cho. Parece que ele a empurrou contra a lareira. Bem, pelo menos foi isso o que ela contou.
	Minha tinha tem de ir  polcia e prestar queixa contra ele.

	Eu tambm acho que ela deve prestar queixa  polcia.
	Homem nenhum pode fazer isso contra uma mulher. Em que mundo ns estamos, meu Deus?
	Sempre achei que o sr. Wallace fosse violento. Muitas vezes ele me tratou como se eu fosse um nada, um ser inferior.
	Fico imaginando como a minha tia deve estar sofrendo. O homem com o qual viveu a vida inteira, de repente... se comportar assim...
	Eu acho que essa no  primeira vez que isso acontece.
	No?
	No, eu j o vi trat-la com rispidez por muitas vezes.
	Na minha frente, o meu tio sempre a tratou muito bem.
	Pode ser. Mas a sua tia no queria que voc se casasse com o sr. Summer. E isso eu a ouvi dizer ao seu tio. Na verdade, sua tia vivia dizendo que voc tinha o direito de ser feliz. E que felicidade s acontece onde existe amor.
As duas continuaram conversando. Cerca de uma hora mais tarde, Patrcia Wallace apareceu na sala de espera, com o brao enfaixado.
	O que foi que aconteceu?  Allison perguntou ao mdico, que havia empurrado a cadeira de rodas at ali.
	Sua tia levou uma forte pancada no brao mas, felizmente, foi s isso, no encontrei nenhum osso fraturado. Logo ela estar boa.
	Voc me leva para casa, Allison?  Patrcia Wallace pediu, chorosa.
	Mas  claro que sim, tia.
		Vou pedir a um enfermeiro para ajudar vocs.
Allison, Martha e Patrcia Wallace estavam deixando o estacionamento do hospital.
	Posso lhe pedir uma coisa?  Com os olhos cheios de lgrimas, a tia se dirigiu  Allison.
	Fale, tia, por favor.
	Posso passar a noite na sua casa?
	Mas  claro que sim.
	E, por favor, filha, no me faa perguntas.
Daquele momento em diante, nada mais se falou dentro do carro, at que as trs chegassem na fazenda.
Aps ter estacionado o carro diante de casa, Allison e Martha, com muito cuidado, levaram Patrcia Wallace at um quarto que ficava na parte de baixo da manso.
	Posso usar o telefone um pouco, Allison?  Martha pediu.
	Sinta-se  vontade, Martha. L na sala de estar tem um telefone.
A governanta deixou o quarto e quando voltou, alguns minutos mais tarde, disse  patroa:
	Liguei para a polcia, sra. Wallace.
	Voc fez o qu?  Patrcia Wallace perguntou, apavorada.
	Liguei para a polcia. Daqui a pouco, o delegado estar aqui para que a senhora conte a ele o que aconteceu.
	Mas o carro, eu...
 No houve acidente algum, sra. Wallace. A senhora e eu sabemos muito bem disso. E Allison tambm. Patrcia Wallace comeou a chorar copiosamente.
	Vai ser um escndalo. E o banco?
	Esquea o banco, tia. Esquea tudo. A senhora no pode continuar convivendo com um homem como o tio Charles. Pessoas como ele merecem ser denunciadas.
	Allison, um escndalo agora seria fatal para o banco.
	Por favor, no pense nisso agora.
Allison ficou conversando com a tia at a chegada do delegado.
Aps as perguntas de praxe, o delegado foi embora, dizendo que iria tomar as providncias necessrias. Allison, ento, pediu a Edward que servisse o jantar para as trs no quarto, de onde saiu s dez horas aps ter conversado muito com a tia. Patrcia Wallace ficaria sob os cuidados de Martha, que iria dormir no mesmo aposento que a patroa.
Allison, aps um longo banho, deixou o banheiro e, ao entrar no quarto, deu de cara com Blue.
	Edward me disse que a sua tia e uma outra senhora esto hospedadas aqui  ele comentou,  sem mesmo cumpriment-la.
	 verdade. Minha tia foi agredida pelo meu tio.
	A sua tia... foi... o qu?
	E exatamente isso que voc ouviu, Blue. Meu tio agrediu a minha tia fisicamente.
	Aquele covarde!  Blue demonstrava muito dio.  Precisamos chamar o delegado. Isso no pode ficar assim. A atitude do seu tio foi imperdovel. E ele precisa ser punido.
	O delegado j esteve aqui.
	J?
	J.  Allison balanou a cabea em afirmativa.
	Ainda bem! E o que foi que ele disse?
	O delegado disse que vai tomar as providncias necessrias.  Allison, desconsolada, deu um longo suspiro.
 E amanh vou precisar que me faa um favor.
	E que favor  esse?
	Quero que v at a casa da minha tia.
	Fazer o qu?
	Minha tia precisa de roupas. E a governanta dela tambm.
	Farei isso com imenso prazer. E se o seu tio resolver me enfrentar, ele ter o que merece.
	Por favor, Blue, no use de violncia. Eu detesto qualquer tipo de violncia.
	Eu tambm detesto violncia. Mas se aquele crpula resolver me enfrentar, garanto que ele ter o que merece. Agora, se me der licena, preciso de um banho. Estou exausto.
Naquela noite, quando Blue deitou-se, Allison j estava dormindo profundamente. Na manh seguinte, ao acordar, o primeiro pensamento dela foi para a tia.
"No me conformo com o que aconteceu. Ningum merece passar por tanta humilhao. Jamais imaginei que o meu tio fosse to violento."
Allison saiu da cama, trocou-se e desceu para tomar o desjejum.
Ao entrar na sala de jantar, ela viu Blu sentado  mesa. Perto da porta, algum havia deixado quatro malas.
	Voc vai viajar?  Allison quis saber.
	No, essas malas so da sua tia e da governanta. J estive l na casa daquele covardo.
	J?
	Um pouco antes das seis da manh eu j estava l.
	E o meu tio?
	Fui atendido pelo jardineiro. O seu tio desapareceu.
	Era de se esperar.
	O jardineiro falou com a copeira, e foi ela quem arrumou as malas. Agora estou indo para o banco.
	Mas se ele desapareceu...
	Tenho certeza de que o seu tio no vai aparecer por l, Allison, mas eleja deve ter arrumado algum para cuidar do banco, enquanto estiver desaparecido. Provavelmente o advogado.
	Muito obrigado pelo seu interesse, Blue.
	No estou fazendo nada mais do que a minha obrigao.
E Allison, depois daquele dia, conheceu uma outra faceta da personalidade de Blue, que passou a tratar Patrcia Wallace com extrema considerao.
Uma semana aps ter chegado na fazenda, Patrcia deixou o quarto pela manh bem cedo e se encontrou com Blue.
	Como passou a noite, sra. Wallace?  Blue perguntou, aps t-la cumprimentado.
	Muito bem. E voc Blue?
	Eu estou timo, pronto para mais uma dia de trabalho.
	Voc me faria um favor, Blue?
	Claro, sra. Wallace.
	Ser que pode pedir a um dos seus empregados para selar um cavalo para mim?
	Mas a senhora est pretendendo eavalgar?
	Estou, estou, sim.
	Acho que no deveria fazer isso. A senhora ainda est se recuperando.
	No sinto mais dor no brao. E eu adoro cavalgar.
	Tem certeza de que no deveria ficar mais alguns dias em repouso?
	No suporto mais'ficar trancada naquele quarto. Depois de uma boa cavalgada, sentirei-me bem melhor.
	Sra. Wallace, no acho aconselhvel que saia por a sozinha.
	Eu cavalgo desde muito pequena, Blue. Meu pai tambm tinha uma fazenda. Sinto-me livre, dona do mundo, quando estou cavalgando.
	Tudo bem, vou desmarcar alguns compromissos. Depois irei cavalgar com a senhora.
	De maneira alguma: voc no vai desmarcar os seus compromissos por minha causa.
	Olha, sra. Wallace, ou cavalga comigo, ou no vou lhe emprestar nem um dos meus cavalos  Blue disse, com seriedade.
	Se  assim...  Patrcia Wallace acabou concordando,  vamos cavalgar juntos.
Ao descer para o caf da manh, Allison perguntou a Edward sobre Blue.
	Ele saiu h cerca de meia hora para cavalgar com a sua tia, sra. Summer.
	O qu?  Allison perguntou, preocupada.  Minha tinha ainda no tem a menor condio de cavalgar.
	Mas ela saiu, sim, com o sr. Summer.
	Poderia pedir que me servissem o caf da manh, Edward?
	Com toda certeza, senhora.  O mordomo se afastou e Allison se dirigiu para a sala de jantar.
Logo aps ter iniciado o caf da manh, Martha entrou na sala e perguntou:
	 verdade o que me disseram, Allison? A sua tia foi mesmo cavalgar com o sr. Summer?
	Pelo jeito foi, sim.
	Mas sua tia no poderia ter feito isso.
	Sente-se, Martha, e tome caf comigo.
	De jeito nenhum. Vou tomar o meu caf l na cozinha com os outros empregados.
	No, voc vai tomar o caf aqui comigo.
	Allison, no posso fazer isso  Martha relutou.
	No s pode como vai.
Martha acabou sentando-se  mesa com Allison.
	Estranhei muito a atitude da sua tia. Ontem, antes de dormir, ela estava muito abatida.
	Tambm, no era para menos. Ontem ela ficou sabendo da priso do meu tio.
	Uma priso que durou pouco tempo. Foi s pagar fiana e ele saiu de novo.
	Pois ...
	A, hoje, eu acordo e no a encontro na cama. Depois, fico sabendo que est cavalgando.
	Melhor assim, no ? Pelo menos, ela saiu daquele quarto. Gostaria muito que a sua tia pedisse o divrcio logo.
Tenho medo de que ela acabe voltando para o seu tio.
	Eu tambm tenho muito medo de que isso acontea. Minha tia merecia encontrar um homem que a fizesse muito feliz.  Allison deu um profundo suspiro.  Como nunca percebi que o meu tio a maltratava?
	Seu tio jamais fazia nada contra a sra. Wallace quando voc estava por perto, Allison. Ele  um homem esperto.
	Bem, o importante agora  que ela parece ter sado do luto que havia se imposto e resolveu renascer para a vida.
	Ser que no vai acontecer alguma coisa a ela?
	No acredito. Minha tia sabe o que faz quando est sobre um cavalo.
As duas continuaram conversando enquanto tomavam o caf da manh. Depois, Allison foi para o hospital brincar com as crianas. Na hora do almoo, ela resolveu ir para casa e se deparou com a tia corada e muito feliz.
	Tia Patrcia, a senhora parece que rejuvenesceu dez anos.
	E  assim exatamente que eu me sinto, minha filha: dez anos mais jovem. Acho que, pela primeira vez, desde que me casei, sinto-me livre. E devo isso a voc,  Martha e ao seu marido. Hoje pela manh, ns dois samos para cavalgar.
	E acha que no fiquei sabendo?
	Eu estava completamente equivocada quanto ao Blue ele  um amor de criatura. Voc nem imagina como ele me tratou... Voc tirou a sorte grande, Allison.
	Eu havia dito  senhora que Blue  um homem muito educado.
	E verdade, mas eu no tinha acreditado.
	Que tal ns almoarmos agora, tia? Ainda tenho de voltar para o hospital.
	Otimo. Vamos almoar. Estou com uma fome de leo.
Naquele dia  noite, Blue entrou no quarto e, como vinha acontecendo nos ltimos tempos, no deu muita importncia  Allison, e foi tomar um banho.
Na cama, sob os lenis, ela se sentia culpada. Muito culpada. Culpada por algo que no tinha a menor ideia do que se tratava.
Porm, ao sair do banheiro, Blue deitou-se, tomou-a nos braos e amou-a com desespero. Algo muito estranho comeava a se delinear na mente dele, algo que Blue ainda estava fazendo questo de ignorar.
	Blue?  Allison arriscou, aps ter tido um dos orgasmos mais intensos de sua vida.
	O que foi?  ele respondeu, meio contrariado.
	Por que voc est me tratando de maneira diferente?
	No estou tratando voc de maneira diferente.
	Est, sim, Blue  ela disse com carinho.  Voc, nem de longe, lembra o homem com o qual fiquei em Dlias.
	Aquele homem estava de frias.
	O que eu fiz de errado, Blue?
	Nada, voc no fez nada de errado.
	Voc tem outra mulher?  ela perguntou de chofre.
	Outra mulher?  Ele apoiou-se num dos cotovelos e a fitou, indignado.  Por quem voc me toma?
	Desculpe-me, mas outro dia eu lhe contei sobre a relao que o meu tio...
- No admito. Mas no admito mesmo que me compare com seu tio  ele esbravejou.  Eu tenho carter, Allison. Jamais trairia a minha esposa.
	Mesmo no a amando?
	Mes... mo... no a amando  ele titubeou.  Ns vamos ter filhos, ns vamos ter uma famlia.  s isso que eu quero na minha vida: uma famlia.
Allison achou que aquele era o melhor momento para contar a Blue que estava tomando plula anticoncepcional.
	E por que voc no me disse isso antes?  Blue perguntou, atnito, depois de ficar sabendo do fato.
	Porque no queria decepcion-lo.
	A, para no me decepcionar, resolveu mentir para mim.
	No, Blue. Eu simplesmente omiti que estava tomando plula.
	Voc no deveria ter feito isso. Achava que, a qualquer momento, voc me diria que tinha engravidado.
	Espero. ficar grvida, sim, mas no ser to breve quanto voc estava imaginando.
	Quero que v consultar o seu mdico. E, logo que for possvel, pare de tomar anticoncepcional.
	Por que tanta pressa em ter um filho?
- Quero ter para quem deixar a minha fortuna.
	S por isso, Blue?
	No. Alm disso, eu adoro crianas. E sempre quis ter vrias.
	Ns ainda teremos muitos filhos, Blue.
	Eu sei que sim. Ou melhor: eu espero que sim! Agora, se me der licena, quero dormir. Amanh eu viajo para Dlias.
	Voc vai viajar? Por que no me contou antes?
	Porque s fiquei sabendo que vou para l hoje  tarde. Boa noite, Allison.
	Boa noite, Blue.
CAPITULO X

Fazia um ms que Allison havia deixado de tomar anticoncepcional. Blue, mais do que nunca, queria um filho. E, para surpresa de Allison, continuava tratando muito bem a sua tia, que havia pedido o divrcio e agora morava com Martha na propriedade que tinham prxima  fazenda.
Allison, por causa da ansiedade de Blue, estava se sentindo pressionada, e temia no engravidar. Porm, ao mesmo tempo, procurava trat-lo com compreenso, pacincia e extremo carinho.
Uma noite, aps o jantar feito num profundo silncio, ela olhou para Blue e perguntou:
	Por que voc est to preocupado?
	Eu no estou preocupado. Estou apenas cansado.
	Mas em Dlias voc mostrou que tambm pode ser um homem tranquilo, leve.
	L eu estava de frias. J lhe disse isso.
	Voc sente dio por mim, Blue?
	De maneira alguma  ele se apressou em responder.  Na verdade, no sinto nada por voc.
	Isso  impossvel. A gente sempre sente algo por uma outra pessoa.
	Pois eu no sinto nada por voc.
Allison, em pensamento, recomendou-se muita calma e arriscou:
	Faz tempo que estou querendo lhe pedir para que me leve para conhecer onde tudo comeou.
	No entendi.
	Quero que me leve para conhecer a primeira fazenda que voc comprou, e onde trabalhou de sol a sol, com todas as suas foras.
	Para qu?  Ele sorriu com cinismo.  Alm disso, voc no combina com aquele lugar.
	No? E eu combino com o qu?
	Allison Wallace combina com riqueza, no com pobreza.
	No sei se voc me superestima ou se me subestima, Blue. E, seja qual caso for, eu no gosto.
	Por que voc quer ir at l? E fazer o qu?
	Quero apenas conhec-lo melhor.
	Por qu?
	Porque voc  meu marido. E porque eu te amo  ela respondeu com humildade e coragem.
	O que  isso, Allison?  Ele riu.  Falar em amor nessas alturas dos acontecimentos?
	Pois eu te amo, sim. Na verdade, acho que sempre te amei. E foi por isso que me casei com voc.
	Voc e a sua famlia sempre quiseram o meu dinheiro.
	Olha, o nosso casamento foi feito dentro de circunstncias no muito normais. Mas gostei de voc desde o primeiro momento que o vi, desde aquele dia em que voc trocou o pneu do meu carro.
	E voc quer mesmo que eu acredite num absurdo to grande? Voc se casou comigo por causa do meu dinheiro.
	No, no foi por causa disso.
	Est pensando que eu sou um imbecil, Allison?  ele perguntou, com muita raiva.  E tem uma coisa muito importante que quero lhe dizer. Andei pensando muito no assunto e cheguei  seguinte concluso: se voc no engravidar dentro de um ms, vou pedir o divrcio.
	Blue, o que voc est falando  loucura.
	Quem sabe eu no sou um louco, mesmo?
	No quero me divorciar de voc. Acabei de lhe dizer que te amo.
	Voc sabe que eu nunca acreditei no amor, Allison. Portanto, no me venha agora com esse romantismo barato.
	Por que voc no quer me levar para conhecer a sua primeira fazenda?
	Voc no combina com aquele lugar. Acabei de lhe dizer isso, ser que no ouviu?
	Pois eu quero ir at l!
	Tudo bem!  Ele se levantou e, antes de sair da sala, disse:  Amanh cedo ns vamos at l.
A fazenda onde Blue havia descoberto petrleo estava muito bem cuidada e, naquela hora da manh, muitos funcionrios j se encontravam em plena atividade.
	Mas esse local  muito bonito  ela comentou, ao descer do cavalo.  Por que me fez acreditar que era feio?
	No sei.
	Blue, algo muito estranho est acontecendo entre ns dois.
	Voc veio aqui para brigar comigo?
	No estou brigando com voc. S no estou entendo o motivo que o levou a me fazer acreditar que no valia  pena conhecer esta fazenda.
Blue permaneceu em silncio.
	E a Blue, eu gostaria de uma explicao.
	Agora... Agora  muito bonito. Antes no era assim.
 Ele tambm desceu do cavalo.  Eu cuidava disto tudo sozinho.
	Mas essas construes que estou vendo so todas novas. Onde voc morava?
	Na verdade, quando disse que esse local no combinava com voc, estava me referindo ao lugar onde eu morava.
	E onde ele fica?
	Logo ali  ele fez um sinal com a cabea , depois daquela curva.
	Vamos at l, Blue.
Ele, em resposta, tomou-lhe as rdeas das mos, amarrou os dois cavalos numa rvore e, de novo em silncio, seguiu em frente.
Depois da curva, Allison se deparou com uma cabana. Uma cabana, apenas. Tosca, sem nenhum conforto.
	No quer entrar, madame?  ele a convidou com ironia, quando j se encontravam diante da porta da cabana.
	Mas  claro que quero  Allison respondeu sem hesitar.
Blue, desconfiado, abriu a porta da cabana, que s tinha um cmodo. No cho de terra batida, havia um colcho apenas.
	Era aqui que eu morava, princesa. Foi aqui, exatamente, que eu sonhei, um dia, poder ser forte e poderoso.
	Naquela poca voc j era forte.
	Ser?  ele duvidou.
	S um homem forte conseguiria morar sozinho neste local.
	Pois eu morei aqui sozinho, por anos a fio.  Blue balanou a cabea em negativa.  E se no fosse a sorte, ainda estaria aqui. E no venha me dizer que, se eu no tivesse tido sorte, voc estaria aqui comigo hoje.
	Blue, eu...
	Voc teria coragem de fazer amor comigo sobre esse colcho, Allison Lancaster Summer? Mas  claro que no. Voc est acostumada a ambientes refinados, limpos, est acostumada a ser servida, est acostumada aos lenis de cetim.
	Pare com isso, Blue, por favor.
	Por qu? Por que devo parar, se estou falando a verdade?
	Parece que sente prazer em me agredir, em me humilhar.

	A vida sempre me agrediu e sempre me humilhou, Allison Lancaster Summer.
	Mas eu sempre o tratei muito bem.
	Voc sempre tratou muito bem do meu dinheiro, no a mim.
	Para mim chega! Para mim chega mesmo!  Ela saiu da cabana e correu para o local onde os cavalos tinhan sido amarrados. Depois, chorando muito, cavalgou at em casa.
No quarto, onde havia sonhado e pensado que um dia iria conquistar o amor de Blue, Allison tinha acabado de arrumar as malas. Dentro delas havia colocado apenas as roupas que lhes pertenciam antes de se casar, e a pasta com todos os seus documentos. Depois, pediu que Edward as colocasse no carro.
	Vai viajar, sra. Summer?  o mordomo lhe perguntou.
	Vou, sim, Edward.
	E pretende estar de volta logo?
	Pretendo nunca mais voltar a pr os ps nesta casa.
	Claro, senhora.  O mordomo colocou as malas no carro e, logo depois, Allison partia.
"Chega de humilhao." Ela chorava copiosamente, enquanto dirigia. "Chega de me comportar como a menininha desamparada e desesperada que est sempre  espera de amor e afeto. Vou fazer o que deveria ter feito depois que deixei a faculdade. Vou procurar um emprego! E vou esquecer que, um dia, aconteceu na minha vida um homem chamado Blue Summer!"
Blue, apesar de muito apreensivo, tinha ficado mais trs horas trabalhando na fazenda. Depois, fora para a cidade tratar de negcios, e s chegou em casa no final da tarde.
	Tudo bem, senhor?  Edward o cumprimentou, meio ressabiado.
	Mas  claro que est tudo bem. Minha mulher est por a?
	A sra. Summer viajou, senhor.
	Ela... o qu?
	A sra. Summer viajou pela manh, sr. Summer.
	E ela disse para aonde iria?
	No, mas, se me permite, ela disse que no pretendia voltar mais para c.
	Por que voc no me telefonou, Edward?
	Eu tentei, mas acho que o celular do senhor estava desligado. Deixei vrios recados na caixa-postal, como sempre fao quando isso acontece. Eu...
Blue, sem esperar que Edward terminasse a frase, correu para o quarto, abriu um dos armrios e, pasmo, viu que estava tudo em ordem. A, ele foi abrir um outro e se assustou com o que viu.
	Allison... Allison foi embora e deixou tudo o que eu lhe dei...  Blue, ento, procurou por um bilhete, mas nada encontrou.
Desesperado, ele ligou para Patrcia Wallace e ficou sabendo que Allison havia se comunicado com ela.
	E onde ela estava?
	No sei, Blue, ela no quis me contar. Vocs brigaram?
	Acho que estraguei tudo, sra. Wallace. Comportei-me de uma maneira imperdovel com a sua sobrinha.
	Blue? Voc a agrediu?
	No, fisicamente, no, sra. Wallace. Jamais faria isso. Mas acho que, moralmente, eu a agredi, sim. Por favor, se ela ligar de novo, entre em contato comigo.
	Farei isso, filho, no se preocupe.
Mas Allison no ligou nem naquele dia, nem nos outros que se seguiram. Blue, j no sabia o que fazer para encontr-la. Trs detetives estavam vasculhando todo o Texas  procura dela, sem conseguir xito algum. Allison parecia que havia se desintegrado.
Com o pouco dinheiro que tinha, Allison depois que deixara Blue, hospedara-se em uma penso, num bairro simples de Houston, e comeara a procurar emprego. Aps uma semana de busca constante e diria, finalmente, encontrou emprego na rea de recreao, num hospital infantil, mantido pela comunidade local. E, apesar da saudade que sentia da tia e de Blue, acreditava que tomara a deciso correta. Agora era dona de sua vida, agora era dona do seu prprio destino.
Um dia, ao acordar, Allison sentiu-se meio enjoada e, logo em seguida, comeou a vomitar. Aquele prenncio se tornou certeza no dia seguinte: estava grvida. Feliz e muito emocionada, ela se dirigiu a um telefone pblico, que ficava em frente  penso, e ligou para a tia.
	Allison, como pde ficar tanto tempo sem nos dar notcias? Faz quarenta dias que partiu, minha querida! Voc est bem?  Patrcia Wallace foi logo falando, assim que lhe reconheceu a voz.
	Tia, eu estou tima. E a senhora?
	Eu tambm estou muito bem. A polcia descobriu que o seu tio e John Blake planejaram juntos o desfalque no banco.
	  mesmo?  Allison perguntou,  espantada.  Quem diria!
	Mas no se preocupe, agora eles tero o que merecem.
	Fao votos que isso acontea mesmo, tia.
	Allison, fale-me sobre voc, por favor.
	Estou bem, trabalhando muito.
	E mesmo? Onde voc est trabalhando?
	Estou trabalhando num hospital infantil.
	O Blue vem aqui todos os dias, para saber se tenho notcias suas.
	Sei... Allison sentiu o corao disparar dentro do peito.
	Ele est muito preocupado.
	Tia Patrcia, no quero falar sobre o Blue.

	Tudo bem, tudo bem, mas me diga: em que cidade voc est?
	Sinto muito, mas no vou lhe dizer.
	Por qu?
	Se eu fizer isso, sei que vai contar ao Blue.
	No vou contar nada a ningum.
	Uma outra hora eu lhe digo onde estou morando, tia.
	Voc  quem sabe, minha filha.
	Telefonei para lhe dar uma notcia maravilhosa.
	 mesmo? E qual  ela?
	Bem eu...  Allison inspirou fundo para conter a emoo.  Eu estou grvida.
	Meu Deus! Que notcia fantstica!
	Tambm estou muito feliz.
	Volte, Allison. Volte e venha morar comigo.
	No, eu vou ficar aqui.
	Mas voc est grvida, filha. E vai precisar muito de ajuda agora.
	Milhares e milhares de mulheres tm seus filhos sozinhas, tia. No serei a primeira.
	Allison, por que esta teimosia agora?
	No quero me encontrar com o Blue. Ele me feriu profundamente.
	Os homens so assim mesmo, Allison.
	Pois eu no concordo com isso. Quero um homem de verdade na minha vida. Detesto qualquer manifestao machista. E no vou aceitar migalhas afetivas do homem que eu amo.
	Mas voc... Voc ama o Blue?
	Claro que sim, tia. Jamais teria me casado com ele se no o amasse.
	Mas eu no sabia...
	 verdade, tia. Eu o amo muito.
	Mais um motivo, ento, para voc vir para c. Lute por ele, Allison.
	Para mim, no amor, no existem lutas. No amor existe apenas afeto, compreenso e muita solidariedade. No tenho culpa se o Blue nasceu pobre. Eu nunca o desprezei por causa disso. E no admito que ele me trate mal s porque tive a sorte de nascer numa famlia mais abastada.
	Volte, Allison. Volte, por favor, volte.
	No tia, vou ficar aqui. E agora preciso desligar. Um grande abrao.
	Mas, eu...
Allison no ouviu o final da frase. Com os olhos cheios de lgrimas, ela desligou o telefone e voltou para o quarto da penso.
Blue desceu no aeroporto de Houston muito apreensivo. Sabia que no agira de maneira correta, quando pedira a um dos detetives que colocasse escuta no telefone de Patrcia Wallace. Mas agora no dava mais para voltar atrs. E iria encontrar Allison, nem que para isso tivesse de ficar um ano ali naquela cidade.
"O telefone do qual ela ligou par a tia est instalado num bairro pobre de Houston. Vou ficar junto a esse telefone at que ela aparea de novo."
Blue saiu do aeroporto apenas com uma mochila, entrou num txi e pediu que o motorista o levasse at o endereo onde ficava o telefone. L chegando, ele observou a regio e disse, baixinho:
	Allison  realmente uma mulher de coragem...
De repente, Blue achou que no poderia ficar ali parado, ao lado do telefone, pois iria chamar muita ateno. Ele, ento, foi procurar um local onde alugassem carros. Por sorte, encontrou uma agncia a trs quarteires de distncia e, l, alugou um carro bem simples. Em seguida, dirigindo, voltou para as proximidades do telefone pblico e aguardou.
Uma, duas, trs horas se passaram e nada. Nada de Allison aparecer.
"Eu vou acabar ficando maluco. E se ela veio at esse telefone apenas para despistar? Allison pode ter imaginado que eu colocaria escuta no telefone da tia e..." Ele balanou a cabea em negativa. "No, se Deus quiser, ela vai aparecer. Tenho de ter f. Tenho de ter esperana."
Anoitecia em Houston. Desconsolado, Blue j tinha quase certeza de que agira de maneira errada.
"Eu deveria ter pedido a um dos detetives que contratei para vir at aqui procur-la. Mas eu s no fiz isso porque no suportaria a ansiedade."
Devagar, o tempo continuou passando. Por volta das dez horas da noite, Blue decidiu se hospedar na penso que ficava ali no quarteiro. Porm, antes de sair do carro, ficou ainda mais de uma hora espreitando.
"Amanh. Amanh  um outro dia e eu vou encontr-la. No posso perder as esperanas."
Blue entrou na penso e se deparou com uma senhora de idade, que o recebeu com um sorriso.
	Estou querendo me hospedar aqui  ele se dirigiu  dona da penso.  A senhora tem um quarto disponvel?
	Tenho, sim. S que no estamos servindo mais jantar por hoje.
	No tem importncia, eu...
	Mas, se quiser, posso lhe servir um copo de leite bem quente com torradas.
	A senhora faria isso?
	Esteja certo de que sim.  Ela lhe entregou uma chave.
	Obrigado.
	O seu quarto fica no final daquele corredor.  A dona da penso apontou.  Se quiser tomar um banho, enquanto lhe preparo o leite...
	Vou fazer isso. Muito obrigado.
De banho tomado, Blue saiu do quarto, que era bem mais confortvel do que imaginara, e se dirigiu  recepo da penso.
De repente...
"No, eu no posso acreditar no que os meus olhos vem... Eu devo estar sonhando."
Allison, muito abatida, cabisbaixa, entrava na penso. Ela voltava do hospital, onde havia feito companhia para um paciente, em estado terminal, de apenas seis anos de idade.
	Allison...  Blue disse num fio de voz, aps ter se aproximado dela.
	Blue... O que voc est fazendo aqui?
	Eu vim busc-la.
	Pois eu no vou com voc.  Ela tentou se afastar, mas Blue a segurou pelo brao.
	Allison, por favor, escute-me.
	O que est acontecendo aqui?  a dona da penso perguntou, muito zangada.
	Est tudo bem sra. Wind.
	Se estivesse tudo bem, esse moo no estaria segurando voc pelo brao.
	Ele... ele... ... meu marido.
	E da? E da que ele  seu marido? Desde quando um marido tem o direito de tratar mal a prpria esposa.  Enfurecida, a velha senhora olhou para Blue e ameaou:
 Solte. Solte o brao dela, ou eu chamo a polcia.
	Certo, certo...  Blue estava muito espantado com a fora que existia naquele corpo frgil. : No vim aqui para brigar, sra. Wind.
	Acho bom. Acho bom mesmo! Vou ficar de olho no senhor. Se levantar um s dedo, se disser apenas uma palavra num tom agressivo para a Allison, eu chamo a polcia.
	Pode ficar tranquila, sra. Wind. Eu sou de paz.
	Eu tambm. E o seu leite j foi servido l no refeitrio.
	Muito obrigado.  Blue olhou para Allison e pediu  Voc me acompanha?
	Estou cansada, Blue. Vou para o meu quarto.
	Allison, preciso muito conversar com voc.
	O senhor no ouviu o que ela acabou de dizer?  A sra. Wind voltou a interferir na conversa.
	Por favor, Allison  ele insistiu , vamos at ao refeitrio. E muito importante o que tenho para lhe dizer.
	Tudo bem, eu vou at l com voc.
Allison seguiu na frente. Ao chegarem no refeitrio, os dois foram se sentar  mesa onde se encontrava o copo de leite e uma cestinha com torradas.
	O que voc tem para me dizer? Se quiser o carro de volta,  s lev-lo. Eu nunca o usei aqui em. Houston. A sra. Wind me emprestou a garagem dela, que fica ao lado desta casa. E...
	Eu te amo, Allison  ele a interrompeu. Mas Allison continuou:
	...eu no quero nada de voc, Blue. Eu nunca quis nada material de voc.
	Allison, voc ouviu o que eu lhe disse?
	No.
	Eu disse que te amo, Allison.
	No credito em voc Blue Summer. Voc est aqui porque a minha tia lhe contou que estou grvida.
	Eu estou aqui porque te amo, eu sempre te amei.
	Que conversa  essa agora, Blue? Voc nunca acreditou em amor.
	Nunca convivi com o amor, Allison. Por isso no soube identific-lo, quando aconteceu na minha vida. Pensei que s fosse uma forte atrao fsica, o motivo que me levou a me casar com voc. Mas era amor. Sempre foi amor. Voc nem imagina como tenho sofrido, depois que voc me abandonou. E eu sei, eu sei que mereci ter sido abandonado. Mas agora eu a quero de volta. Voc precisa me dar a chance de lhe provar o quanto te amo.
	Amor, que  amor, no precisa de provas, Blue.
	Olha, Allison, sou um homem simples, e no sei meexpressar direito. Minha me morreu quando eu tinha quatro anos. Muito tempo depois, vim saber, atravs de uma tia, que tambm j faleceu, que a minha me sofreu muito nas mos do meu pai. Ele bebia. Acho que nunca o vi sbrio. Portanto, eu nunca aprendi o que era o amor. Mas voc me mostrou o lado claro da vida, o lado bom.
	Blue, voc me ofendeu e me magoou profundamente.
	Eu sei, eu sei disso. E quero que me desculpe. Isso jamais voltar a acontecer. Quero ser feliz ao seu lado, Allison. E sei que, se me der uma nova chance, serei muito feliz ao seu lado. Chega de pessimismo, chega de misria emocional, chega de fugir do amor. Eu te amei desde que a vi pela primeira vez. Hoje eu sei disso. Mas, naquela poca, voc era para mim como a estrela mais longnqua. Voc pertencia a uma famlia rica, respeitada. E eu no era nada mais do que um pobreto, um homem que apenas acreditava muito no futuro, embora o futuro se apresentasse sempre como algo muito ruim.  Ele balanou a cabea em negativa.  Se ns j no estivssemos casados, pediria agora a sua mo em casamento.
	Tenho medo de acreditar em voc, Blue. Acredito muito no destino que escolhi para mim. No quero mais depender de voc. No quero mais depender de ningum.
	Allison, s mais uma chance. Me d s mais uma chance, por favor.
	Allison!  Era a sra. Wind que estava junto  porta do refeitrio.  No d para ver que o moo est sendo sincero? Ele me parece um bom rapaz.
Allison sorriu para a dona da penso, que tanto a havia ajudado desde que chegara em Houston.
	Agarre a felicidade com as duas mos, minha filha.
E no deixe que ela escape por entre os seus dedos.
	Allison, se quiser, voc pode arrumar um emprego l em Chaney. Agora, se quiser mesmo ficar em Houston, estou disposto a me mudar para c.
	E os seus negcios?
	Posso dar conta de tudo. Na semana passada, eu comprei um jatinho.
Allison pensou um pouco e se decidiu:
	Eu vou voltar. Vou voltar e, alm de arrumar um trabalho, vou continuar sendo voluntria no hospital de Chaney e dando aula de catecismo s segundas-feiras.
	Oh, meu amor...  Blue se levantou e a tomou nos braos. Depois de beij-la com paixo, ouviu a voz da sra. Wind dizendo, aps um longo e profundo suspiro:
	E eu que estava a fim de chamar a polcia... O amor  lindo...
	A senhora tem toda a razo, o amor  lindo...  Blue deu um forte abrao em Allison.  E eu, acabei de descobrir isso h muito pouco tempo.

FIM
